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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_lume_oai_000 | ou por sensações para as quais seria plausível (embora racionalmente incerto) crer que tivessem uma matriz
etiológica em coisas no mundo (Hume). Locke usando a terminologia cartesiana, chamou a tais conteúdos de
idéias. Para ele, as palavras, que são os constituintes da linguagem por meio dos quais nos comunicamos, | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 79 | |||
do_lume_oai_001 | constituída por nomes que correspondem a idéias. A relação entre nomes e idéias é arbitrária, fato que, para
Locke, não só explicava a diversidade das línguas, como também dava conta da atribuição de propriedades
semânticas tout court (v.g. , representar, referir-se a, ser verdadeiro de) às idéias. Como a linguagem é | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 79 | |||
do_lume_oai_002 | apresentamos o desenho da árvore a alguém, tal pessoa pensaria necessariamente numa árvore real. Mas
ainda, ela seria levada a pensar numa árvore mesmo que jamais tivesse entrado em contato com árvores reais
(essa pessoa pode ser habitante de um planeta em tudo semelhante ao nosso, exceto por uma circunstância: | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 78 | |||
do_lume_oai_003 | relacionariam por convenção. (Fodor, 1976:157-96)
A idéia é, em princípio, plausível. No entanto, uma análise mais detida do que ela nos oferece mostra que o
PMI não pode corresponder às exigências daquilo que fazemos quando falamos e pensamos, e isto por uma
razão muito simples: no PV, que é o Português padrão (no qua... | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 117 | |||
do_lume_oai_004 | Mental
Princípio da Correspondência Sistemática: estabelece a possibilidade da construção de linguagens nas quais
há uma “correspondência sistemática” entre certas características sintáticas e certas características
semânticas dos itens que constituem o domínio destas linguagens. Isto quer dizer que o conteúdo | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 77 | |||
do_lume_oai_005 | qual me refiro deve, assim, possuir um léxico a partir do qual Pedro possa ser representado sob certas
condições determinadas e específicas.
Símbolos semanticamente avaliáveis são aqueles que podem ser combinados devido às propriedades
sintáticas que possuem essencialmente. As regras de associação entre estes símbolos ... | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 84 | |||
do_lume_oai_006 | Ser semelhante não é uma propriedade que podemos caracterizar, sem o recurso a algum critério ad
hoc, como representacional. Coisas que são semelhantes não são coisas que necessariamente representam
umas às outras, mesmo porque a semelhança é uma relação simétrica e a representação não o é. Um símbolo | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 75 | |||
do_lume_oai_007 | Bibliografia:
Aristóteles. De Interpretatione (trad. ing. E. M. Edghill, The Works of Aristotle, London, Oxford University
Press, vol. I, 1971).
_________, De Anima (trad. ing. J. A. Smith, The Works of Aristotle, London, Oxford University Press,
vol. III, 1968).
Fodor, Jerry, The Language of Tought, Hassocks, The Harv... | dominio_publico | null | null | lume_oai_www.lume.ufrgs.br_10183_433 | 132 | |||
do_obra_016_000 | Tudo isso era dito com volubilidade, confiança e doçura. Calçadas as luvas,
pôs o mantelete, e a sobrinha ajudou-a, falando também, jurando que, apesar de
tudo, adorava o Conrado. Conrado era o marido, advogado desde 1874. D. Paula
saiu, levando muitos beijos da moça. Na verdade, não podia chegar mais a ponto. | dominio_publico | null | null | D. Paula | Machado de Assis | 77 | ||
do_obra_016_001 | rumor das vozes, e teve o poder de representar, com o quadro, um pouco das
sensações dela; e pediu-lhas com interesse, astutamente.
—Não sei o que senti, acudiu a moça cuja comoção crescente ia desatando a
língua; não me lembro dos primeiros cinco minutos. Creio que fiquei séria; em todo o
caso, não lhe disse nada. Par... | dominio_publico | null | null | D. Paula | Machado de Assis | 92 | ||
do_obra_001_000 | cujas áreas se deduzem, com segurança, em números redondos:
Região ao sul do Madre de Dios 93 000 km
Região entre o Madre de Dios, Abunã, Acre Meridional e paralelo 11o 73000 km
Região a oeste da linha Inambari-Javari 130 000 km
Região ao norte do paralelo 11o até a linha de Santo Ildefonso, conforme as últimas | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_001 | privilegiada flora geradora da matéria-prima entre todas mais crescentemente exigida pela indústria moderna
- põe-se de manifesto que o debate arbitral, em andamento, não entende apenas dos interesses imediatos das
Repúblicas litigantes, senão também dos que se ligam, sob várias modalidades, à economia geral, à polít... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 119 | ||
do_obra_001_002 | estribilho único. Este: providências e medidas urgentíssimas “a contener os portugueses del rio de S. Pablo
...“ E quando cessa é para ceder a variantes piores: em 1638, por exemplo: o licenciado Presidente da
Audiência de Charcas, depois de descrever a marcha da invasão, sobrestante no território de Moxos e com | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_003 | concebida a ciegas, teria de ultimar-se, obrigatoriamente, na margem direita do Javari. Nomeado este, dever-
se-ia nomeá-la. Não o fizeram, porém, os modernos estadistas. Não deviam fazê-lo. Foram lúcidos. Foram
lógicos. A base das novas negociações era outra. O Tratado preliminar de 1777 estava extinto. O de 1851 | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_004 | O mesmo Paz Soldan, no mesmo livro - livro oficial, cristalizando todo o conhecimento geográfico do tempo
-, traça os limites orientais da República. A linguagem é resplandecente. Não há miopia intelectual que se lhe
furte. Diz:
“De Tabatinga vers la Sud, la rivère Janary a partir de son confluen ce avec le fleuve d... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 85 | ||
do_obra_001_005 | Digamos: a base principal das pretensões peruanas, no vertente litígio com a Bolívia, submetida ao exame e
ao juízo do Governo argentino, além de ser incaracterística e vaga, ilógica e inviável, nula de direito e de fato,
volúvel ou passiva ante os caprichos de todos os cartógrafos - está errada, flagrantemente errad... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 83 | ||
do_obra_001_006 | atribuições, das que entendiam de simples casos administrativos, aos assuntos da guerra, às delicadas
exigências da justiça. Além disto, o grande ajuntamento ilícito, de soldados e exatores, adscrito a um esforço
único, sem funções especializadas, amorfo e inconsistente chegando, acampando, saqueando, saindo - não | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_007 | entestar os domínios portugueses, a nova Audiência se expandia em extremas incaracterísticas: ao norte, as
regiões ainda misteriosas, inçadas de infietes genericamente designados pelos nomes de chunchos e mojos; ao
sul, os terrenos do Paraguai, e as províncias de Tucuman e Juries, que hoje se integram na Confederação | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_001_008 | repartimentos e das mitas. Viram-se, então, desde logo, fronteirando-se, o melhor das gentes forasteiras e o
aborígine. O cruzamento entrelaçou-se como em nenhuma outra possessão espanhola. Surgiu uma gente
nova, mais robusta, mais estável, equilibrando-se ao meio, e refletindo, a par dos atributos físicos da | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_009 | dispartiam em tumultos e revoltas intestinas, ali se compunham num movimento geral e instintivo de defesa.
Leiam-se os cronistas do tempo. Os bolivianos acordaram na história aos prolongados rumores de uma
invasão. Adestraram-se desde cedo num tirocínio de batalhas. Uniram-se sob o império de uma ameaça, que | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 77 | ||
do_obra_001_010 | Os terrenos repartir-se-iam por igual; e, certo, portugueses e espanhóis, naquele tempo, não compreenderiam
que, depois de estabelecidos tais limites, se insinuasse por ali, ajustando-se-lhes, estreitíssima, pela parte do
sul, a estirar-se por mil e quinhentos quilômetros até chegar ao Madeira, um tentáculo apreensor... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 109 | ||
do_obra_001_011 | aldearam os índios pamas, erecta, em 1758, nas cercanias da cachoeira do Girau (9o 20‘ 45“ 7 lat. sul; 65o 04‘
42“ long. O. Greenwich).
Aí estio duas coordenadas astronômicas e uma data que, nesta concisão numérica, valem muitas páginas
eloqüentes. Dizem, com o inflexível rigorismo destes números a travarem-se, níti... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 86 | ||
do_obra_001_012 | cento e quarenta e cinco anos. .. e está cento e setenta quilômetros ao sul da singularíssima latitude (6o 52‘
15“) das pretensões peruanas‘
Ora, neste expandir-se, encalçou-a a influência boliviana. Faltou-lhe, sem dúvida, um historiador. Não teve,
também, os decisivos efeitos de uma posse definida. Mas nos nossos ... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 165 | ||
do_obra_001_013 | Assim inicia um deles a narrativa dos casos extraordinários que se desenrolaram até as vésperas do Tratado
de 1777.
Não foram algaras violentas e céleres, surgindo, devastando, desaparecendo; senão uma guerra, que ainda em
1766 exigia socorros urgentíssimos dos governos remotos, do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São ... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_014 | comentar, concluímos que os debates de 1750, completados pela Cédula Real de 1772, destacaram, em plena
luz, a ingerência exclusiva do Governo de Charcas em todo o N . E. dos domínios espanhóis, do Guaporé ao
médio Madeira. A evolução da autonomia boliviana, deduzida a princípio no elastério de um raciocínio
teórico... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 134 | ||
do_obra_001_015 | jesuitas expulsos“ - um nobre objetivo:
“Afianzar aquellos terrenos que tanto codician las rayanos porsa gueses“ (los sagaces portugueses de
Cuiabá!) - e por fim um meio: “a criação de governos político-militares para regerem as duas províncias,
“cada una de cosa de cento e cincuenta leguas de jurisdición“, ficando ... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 89 | ||
do_obra_001_016 | Estes extratos surpreendem. Não há iludir-se-lhes o significado dominante: as gentes da circunscrição
longínqua indicavam, por si mesmas, à monarquia espanhola, os elementos formadores de seu novo aparelho
político, e reclamavam uma reorganização urgentíssima, em que incidiam imperiosos antecedentes históricos. | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_017 | escolas táticas de exercícios militares, sistematizando a aprendizagem da guerra e o destemor dos perigos; e,
por último, um Governo político, no significado mais amplo, “con todos sus ramos y demás dependencias de
él“, por maneira que com o tempo as mesmas províncias pudessem ocorrer às suas próprias necessidades, à | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_001_018 | Por fim, enfeixou todas as medidas deste programa, quase revolucionário para aquela época, propondo:
“...establecer un Gobierno y Capitania General en aquella frontera que abrace, no solamente las misiones de
Mojos, que hoy se consideran las más expuestas, sino también la de Baures y Chiquitos sin excluir la ciudad | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_019 | Releiam-se estas linhas, copiadas sem o discrepar de uma letra. Aí está, visivelmente, a repontar, às claras,
não já uma Audiência revestida de excepcional autonomia, senão um verdadeiro Vice-reinado, ou, pelo
menos, um governo tendo um chefe condecorado com o mesmo subtítulo pomposo dos Vice-reis (D. Pedro | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 77 | ||
do_obra_001_020 | esclareceu, os seus trechos principais. Ampliou o teatro da campanha defensiva, desenvolvendo-o para o sul,
até ao Pilcomayo e ao Chaco. Assim, a seu parecer, não era bastante que os invasores fossem repelidos nas
regiões limítrofes de todo o norte boliviano:
“no basta contenerlos por el lado septentrional de Mato G... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 108 | ||
do_obra_001_021 | maneira explicita, que o problema estava resolvido em toda a banda do norte, onde se firmava o papel
político e militar da Jurisdição de Charcas. Destacou-o, ao cabo, revestido da mais completa autonomia.
Disse: todas aquelas medidas, em que se incluía até um programa científico de explorações geográficas, com | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_022 | Grande, onde se inaugurou o tirocínio militar, bravio, dos gaúchos. Os combates, dispersos em recontros,
céleres e multiplicados, encantam-nos por vezes: a coragem e a destreza, a celeridade e a força, harmonizam-
se à maravilha naqueles esplêndidos torneios, que se alongam nos arrancos das carreiras impetuosas, ou | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_023 | Mato Grosso, e planear-se no Conselho das Índias, como remate e sanção real à marcha progressiva da
Audiência internada, que ia transfigurando-se no crescente refinamento das mais enérgicas qualidades do
caráter, para a repulsa do estrangeiro. A diretriz histórica da Bolívia, a princípio uma frase, traçou-se, afinal, | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 80 | ||
do_obra_001_024 | imperial, não maravilha que na Bolívia, onde o Governo regional subira tanto, se acendesse, e deflagrasse, e
não se extinguisse mais, o primeiro rastilho da insurreição do Equador; ou que
“la primera senal del alzamiento de los criollos americanos fué dada por ella em 1809 en Chuquisaca y la
Paz, um ano antes que en... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 83 | ||
do_obra_001_025 | fundaram a rude nobiliarquia de um verdadeiro marquesado, nas fronteiras.
Ali, ela refinou os seus atributos nativos; e chegou à independência administrativa antes de chegar à
República.
Não se iludem estes fatos. Nem maravilha que no desdobramento do período revolucionário, de 1809-1823, a
Bolívia centralizasse po... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 90 | ||
do_obra_001_026 | o Capitão-general que governou o Peru, de 1790 a 1795, D. Francisco Gil y Lemos, entregou, por obedecer à
lei, ao seu sucessor, um relatório com o mapa de todos os seus domínios. A valia deste documento é intuitiva,
não já pelo caráter legal, senão por aparecer ao cabo de prolongado pleito enfeixando-lhe as resoluçõ... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_027 | Subscrevia-o D. André Baleato, conhecido cosmógrafo da época.(3)
Temo-lo sob as vistas. Vemos, de um lance, a que se reduziam as terras peruanas, em 1795. E embora Gil y
Lemos, na sua memória, advirta “que el reyno deli Perú ha perdido mucho de aquela grandeza local que
tuvo“, e tenhamos assistido a sua decadência, ... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 95 | ||
do_obra_001_028 | Realmente, a sua intendência mais avançada em semelhante rumo, a de Cuzco - que hoje se intenta espichar
até o Madeira - ficava consideravelmente distante deste rio. Qualquer carta revela que só poderia prolongá-la
até ali o partido norte-oriental de Paucartambo; e este cerrava-se em raias inextensíveis e fixas. Dema... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_029 | uma apenas, genuinamente peruana, que por si só supre por muitas. Reclamemos, ainda uma vez, o auxilio
de D. Mateo Paz Soldan, o mestre tradicional da fisiografia da República vizinha. E abrindo o seu livro, o seu
magnífico livro em boa hora impresso em Paris, à custa do Governo de sua terra, leiamos, aprendamos:
“L... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 134 | ||
do_obra_001_030 | querian comprender en la nueva diócesis“.
2o) Os que planejavam unir, sob uma só jurisdição, as terras de Maynas e as de Apollobamba, não sabiam,
“por falta de geografia, la inmensa extensión que daban a aquel obispado“.
3o) Se porventura se efetuasse tão absurdo projeto, ao prelado ser-lhe-ia “imposible que las pud... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_031 | aparecem, carregando cada um o seu pequeno mundo muito bem feito e quase sempre errado.
Falta-lhes, em geral, a intimidade da Terra. Nunca sentiram em torno, entre as vicissitudes das explorações
longínquas, o império formidável do desconhecido, a ressaltar nas perspectivas assombradoras das paragens | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 75 | ||
do_obra_001_032 | levante, depois de acompanhar o Itenez, o Mamoré e o Madeira, estaca na foz do Beni, e desta última estira-
se, retilínea, para o poente, segundo um paralelo, a interferir o Purus na latitude aproximada de 100 30‘.
Notam-se, desde logo, lacunas inevitáveis neste deslindamento geral. Mas o seu significado inegável, | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_033 | capitania ou província de Mato Grosso, estendendo-se para o norte até pouco além da cachoeira de Santo
Antônio, confinava no ocidente, de uma maneira exclusiva, com os Governos de Chiquitos e de Moxos.
Ora, entre todos aqueles nossos geógrafos, que ali viveram percorrendo todas as paragens, dois únicos são | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 77 | ||
do_obra_001_034 | une rivière tres considerable qui separe la province de Carabaye du territoire des barbares... et un afluent du
Maranón dans lequel il va se jeter apres une percours assez êtendu.“(8)
Aí se observa, a ladear o pasmoso erro geográfico, a insistência naquela demarcação política certíssima:
Não multipliquemos os exemp... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_001_035 | brasileiros; em 1844, oriundas das tentativas Bolivianas, visando franquear a navegação para o Amazonas;
em 1845, 1846 e 1847, até 1850, relativas todas, em última análise, ao domínio amplo do Madeira; em 1853-
1858, irrompendo dos decretos declarando livres ao comércio e navegação estrangeiros todos os rios que | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_036 | amargamente, a Bolívia de permitir que ela se mudasse tanto para o sul, o que importava na perda de dez mil
léguas quadradas de terrenos, incorporados ao Brasil, onde se deparam:
“ríos importantisimos, tales como el Purus, ei Yuruá y Yutay, cuyo porvenir comercial puede ser inmenso“;
e, logo adiante, esquecido da se... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 125 | ||
do_obra_001_037 | Por fim, a serôdia impugnação não afirma, não precisa, não acentua um juízo claro dos prejuízos peruanos.
Não diz o que reclama. O protesto é o murmúrio vacilante e medroso de uma conjectura; é a expressão
anódina de um interesse aleatório: o governo boliviano cedeu ao Brasil territórios “que pueden ser de la | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 78 | ||
do_obra_001_038 | O prolongamento natural destas linhas consistiria em desvendar o cenário da recentíssima expansão daquela
República, a estirar-se pelas cabeceiras do Juruá e do Purus - obscuramente, temerosamente e criminosamente
- escondida no afogado das selvas oscuras das castillôas, por onde vai alastrando-se a rede, aprisionado... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_001_039 | PROTESTA DEL PERU
Ministerio de Relaciones Exteriores del Perú - Lima, Diciembre 20 de 1867.
Señor Ministro: El infrascrito, Ministro de Relaciones Exteriores del Perú, tiene el honor de dirigirse á S. E.
el Señor Ministro de igual clase de la República de Bolívia, con motivo del Tratado que se ha celebrado en La | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_040 | Tratado, en la parte que se refiere únicamente a Bolívia. Sin embargo, cree de acuerdo con lo que en otra
ocasión manifestó el Gabinete de Sucre, que el principio del uti possidetis; pactado en el primer acápite del
artículo 2o, si bien puede invocarse con justicia en las controversias territoriales de los Hispanoame... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 82 | ||
do_obra_001_041 | morro de Buena Vista y a los Cuatro Hermanos; de estos también en línea recta hasta las nacientes del rio
Verde; bajará por este rio hasta su confluencia con el Guaporé y por medio de éste y del Mamoré hasta el
Beni, donde principia el rio Madera“.
“De este rio para el Oeste seguirá la frontera por una paralela tira... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 132 | ||
do_obra_001_042 | Del marco designado indicaremos los verdaderos rumbos; en el punto Sur de la margen izquierda del Beni,
16o 53‘ 53“ Sudoeste 4.439,5 metros hasta el punto; formado por la margen derecha del Beni e izquierda del
Mamoré 2o 25‘ 25“ Sudoeste y la distancia de 3575 que queda en la margen derecha del Madera 49o 13‘ 35“ | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 79 | ||
do_obra_001_043 | La segunda cuestion se refiere a la verdadera Latitud y iongitud de la naciente del rio, según Consta del acta
(Latitud 6o 59‘ 29“, 5 Sur y Longitud 74o 6‘ 26“ 67 Oeste de Greenwichb). Aumentando tres millas al rumbo
S. O. del mundo nos da: Latitud siete grados un minuto diez y siete segundos, cinco decimos Sur; y lo... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 81 | ||
do_obra_001_044 | observador admirável.
(6) “Nota Protesta“ do Sr. J. A. Barrenechea, de 20 de dezembro de 1867.
(7) PAZ SOLDAN, Mateo - Geographie du Perou, etc. Publiée aux frais du gouvernement perouvien. Paris,
1863, p. 3.
(8) Loc. cit., p. 2.
(9) El Perú, t. 2o, pp. 405 e 406.
(10) Para isto, ao revés de confluência Mamoré-Gu... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 93 | ||
do_obra_001_045 | semidistância à foz do Madeira:
“15‘52o6“31‘24o32
“31‘24o3‘20o10 =−−
(11) Mapa de la región Hidrográfica del Amazonas Peruano, mandado trazar por la Sociedad Geográfica de
Lima.
(12) PAZ SOLDAN, Manuel Rouaud y - Observaciones Astronomicas y Físicas, etc. Lima, 1869, p. 26.
Ofício de Don Lazaro de Rivera, ao ... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 138 | ||
do_obra_001_046 | originou, vai muito mais do que as fantasias cartográficas daquela época.
(2) Archivo de Índias. Informe del Marquez de Valdelírios, etc. 24 de abril de 1776.
(3) Archivo de Índias. Dictamen del Fiscal Campomanes, 3 de maio de 1777.
(4) Archivo de Índias. Carta de Pedro R. Campomanes a D. José Galvés.
(5) Archivo H... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 120 | ||
do_obra_001_047 | veremos, do nome da primeira província nomeada naquela carta régia.
(2) Archivo de Índias. Extractos de la Junta Suprema de Estado y del Consejo de Indias.
(3) Archivo de Índias. Legajo: “Audiencia de Charcas.“ 1777.
(4) Arcbivo de Índias. Est. 120, cai. 7, ieg. 27.
(5) Historia de San Martin. T. 1.
(6) VALDÉS Y P... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 164 | ||
do_obra_001_048 | A pesar de tantos y tan severos contrastes, no se pasó um sólo dia sin que se pelease y se murise en aquelia
región mediterranea...
... La insurrección en Bolívia cundia a la menor se....
São extratos ao acaso. Há centenas de outros idênticos.
(Historia de San Martin.)
(2) QUIJANO OTERO, José Maria. Memória Histó... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 167 | ||
do_obra_001_049 | Maynas. Arch. índias. Est. 115, c. 6, l. 23.
VII
(1) ZEBALLOS, Estaníslao. Map Showing the Lands Granted by Spain to Portugal. Washington, 1894.
(2) Cf. o mapa que Lardner Gibbon, oficial da U. S. Navy, anexou ao seu Relatório, 1854.
(3) Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. T. IV, p. 156. Qua... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 86 | ||
do_obra_001_050 | VIII
(1) MICHELENA Y ROJAS, F. - Exploración Official, etc., 1867, p. 575
(2) WOLF, T. - Geografía y Geologia del Ecuador, 1892, p. 12.
(3) BASTOS, Tavares. Cartas de um Solitário.
(4) F. Maury, Tenente da U. S. Navy. O Amazonas e as Costas Atlânticas, etc. Rio de Janeiro, 1853, p. 35.
(5) PINTO, A. Pereira. Estud... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 121 | ||
do_obra_001_051 | Mojone, quer dizer marco divisório, o que certo não havia, e sobretudo antigos, naquelas terras ignotas.
(ARANDA, Collección de Tratados del Perú. Tomo II, pp. 309, 293, 287, etc.)
(7) Veja-se o Apêndice final.
(8) Em flagrante desacordo com o parecer atual da Sociedade Geográfica de Lima!.
(9) “Nota-protesta“ do P... | dominio_publico | null | null | Peru versus Bolívia | Euclides da Cunha | 93 | ||
do_obra_017_000 | Amaro foi para casa disposto a fazer no dia seguinte a sua proposta de casamento a
Antonina.
E, com efeito, no dia seguinte apareceu Amaro em casa de Carvalho, como costumava, e
aí, em conversa com a viúva, perguntou-lhe francamente se queria casar com ele.
— Ama-me então? Perguntou ela.
— Deve tê-lo percebido, porqu... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 202 | ||
do_obra_017_001 | fazenda.
— Não, não fui à Soledade depois que voltei; e vais espantar-te da razão; vou casar-me.
— Casar-te!
— É verdade.
— Com a mão esquerda, morganaticamente...
— Não, publicamente, e com a mão direita.
— É assombroso.
— Dizes isso porque não conheces a minha noiva; é um anjo.
— Então dou-te os meus parabéns.
— Hei ... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 98 | ||
do_obra_017_002 | passou rapidamente do velho Horácio a um assado com batatas.
— Mas, continuou o amigo de Amaro, não me dirás por que motivo lhe não respondeste?
— Eu sei lá. Primeiramente porque não estou acostumado a esta espécie de romances
vivos, começando por cartas anônimas, e depois porque vou casar...
— A isso respondo eu que ... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 94 | ||
do_obra_017_003 | Indo daqui para Botafogo, não há motivo nenhum que me impeça de entrar no Passeio
Público ou na Biblioteca Nacional... Queres tu ceder-me o romance?
— Isso nunca: seria uma deslealdade...
— Pois então responde.
— Mas que lhe hei de dizer?
— Dize-lhe que a amas.
— É impossível; ela não pode acreditar...
— Pateta! disse... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 97 | ||
do_obra_017_004 | apressou-se a dizer ao amigo:
— A tua noiva é linda.
— Não achas?
— Decerto. E parece que te quer muito...
— É por isso que eu lamento ter escrito aquela carta, disse Amaro suspirando.
— Olha que parvo! exclamou Marcondes. Por que motivo há de Deus dar nozes a quem
não tem dentes?
— Acreditas que ela responda?
— Se re... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 123 | ||
do_obra_017_005 | Amaro percebeu que o amigo hesitava em dizer-lhe alguma coisa.
— Em que pensas? perguntou-lhe.
— Penso que tu és um palerma; e sou capaz de continuar o teu romance por minha
conta.
— Isso não! já agora deixa-me acabar. Vamos ver que resposta vem.
— Quero que me ajudes, sim?
— Pronto, com a condição de que não hás de s... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 82 | ||
do_obra_017_006 | Quanto ao pedido que me faz de querer ver-me, respondo-lhe que não há de ver-me
nunca; nunca, ouviu? Basta que saiba que eu o amo, muito mais do que há de amá-lo a
viúva Antonina. Perca a esperança de ver-me.
— Estás vendo, disse Amaro Faria a Marcondes mostrando-lhe a carta, está tudo perdido.
— Oh! pateta! disse-lh... | dominio_publico | null | null | O carro 13 | Machado de Assis | 95 | ||
do_obra_002_000 | exalando melancolia e sugerindo recordações.
Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “chácara“ habitada pelos proprietários respectivos;
mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos “bíblias“. Os seus cânticos, aos
sábados (era o seu dia da semana de descanso sagrado), entoados quase de hora em hor... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 83 | ||
do_obra_002_001 | estava sempre cheio, nos seus dias solenes.
Os freqüentadores dessa ou daquela natureza lá iam sem nenhuma repugnância, pois é
próprio do nosso pequeno povo fazer uma extravagante amálgama de religiões e crenças de toda a
sorte, e socorrer-se desta ou daquela, conforme os transes e momentâneas agruras de sua existê... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 81 | ||
do_obra_002_002 | morrido.
Eram casados há quase vinte anos, e esta Clara, sua filha, sendo o segundo filho do casal,
orçava pelos seus dezessete anos.
Era tratada pelos pais com muito desvelo, recat o e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só
saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 82 | ||
do_obra_002_003 | montanhas circundantes, nuas e pedroucentas, que recortavam o alto horizonte.
De quando em quando, mas sem grandes espaços, Joaquim gritava para a cozinha:
- Clara! Engrácia! Café!
De lá, respondiam, com algum amuo na voz:
- Já vai!
É que as duas mulheres, para preparar o café, tinham que retirar, de um dos... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 84 | ||
do_obra_002_004 | de Joaquim recebiam os cumprimentos da menina:
- A bênção, meu padri nho; bom-dia, Seu Lafões.
Eles respondiam e punham-se a pilheriar com Clara.
Dizia Marramaque:
- Então, minha afilhada, quando se casa?
- Nem penso nisso - respondia el a, fazendo um trejeito faceiro.
- Qual! - observa Lafões. - A menina j... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 93 | ||
do_obra_002_005 | do violão e da modinha.
Clara não se conteve e perguntou apressada:
- Quem é?
Lafões respondeu:
- É o Cassi. A menina...
O guarda das obras públicas não pôde acabar a frase. Marramaque interrompeu-o furioso:
- Você dá-se com semelhante pústula? É um su jeito que não pode entrar em casa de família. | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 77 | ||
do_obra_002_006 | fosse o violão, fossem ambos conjuntamente, o certo é que, no seu ativo, o Senhor Cassi Jones, de
tão pouca idade, relativamente, contava perto de dez defloramentos e a sedução de muito maior
número de senhoras casadas.
Todas essas proezas eram quase sempre seguidas de escândalo, nos jornais, nas delegacias, | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 78 | ||
do_obra_002_007 | ou quase nada sobrando para roupas, sapatos e gravatas. Ele, sem isto tudo, estava perdido. Adeus
amor! Se o quisesse, tinha que pagar...
Considerando tal hipótese, não relutou em obe decer à irmã; mas começou a cercar Nair “por
fora“. Quando ela ia sair, precedia-a, ficava na porta da padaria, cumprimentava. Afina... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 81 | ||
do_obra_002_008 | descobrir-lhe a falta, que se denunciava pelo estado do seu ventre. Correu ao Senhor Manuel, que
não estava. Falou a Dona Salustiana e esta, empertigando-se toda, disse secamente:
- Minha senhora, eu não posso fa zer nada. Meu filho é maior.
- Mas, se a senhora o aconselhasse como mãe que é, e de filhas, talvez ob... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 127 | ||
do_obra_002_009 | dor inqualificável:
- Não posso fazer nada, no caso, minha senhora. Já lhe disse. A senhora recorra à justiça, à
polícia, se quiser. É o único remédio.
A mãe de Nair acalmou-se um pouco e observou:
- Era o que eu queria evitar. Será uma vergonha para mim e para a senhora e família.
- Nós nada temos com o que C... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 111 | ||
do_obra_002_010 | iniciativa do processo quando a vítima é filha de pais miseráveis, sem recursos.
- Mas, não há remédio, doutor?
- Só a senhora constituindo advogado.
- Ah! Meu Deus! Onde vou buscar dinheiro para isso? Minha filha, desgraçada, meu Deus!
E pôs-se a chorar copiosamente. Quando serenou, o delegado mandou que um em... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 81 | ||
do_obra_002_011 | cantos da sala.
- Mas que há, homem? - fez a mulher assustada.
- Lê isto.
Deu-lhe o jornal, apontando o local do suicídio.
- Mas que culpa tem...
Não acabou a frase, Dona Salustia na; o marido logo a interrompeu:
- Culpa! Esse biltre sem senso moral algu m; esse assassino, esse desgraçado que leva a | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 78 | ||
do_obra_002_012 | normalista, na viagem de trem, o olhava muito.
Marcou-lhe a fisionomia e, ao dia seguinte, à mesma hora, pôs-se, na estação, à espera dela;
não veio. Esperou outro trem, não veio. Assim, esperou diversos. No outro dia, após esse, foi mais
feliz; ela veio. Procurou lugar conveniente e pôs-se a fazer trejeitos. A moç... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 83 | ||
do_obra_002_013 | palestrando calmamente. Cassi os olha insistentemente. Chegam à Central, e o rapaz despede-se da
moça, que segue para a sua escola. Volta- se o cavalheiro e procura com o olhar o Senhor Cassi.
- É o senhor?
Cassi Jones responde:
- Sou eu.
- Desejava muito falar-lhe. Vamos à confeitaria; é coisa particular, e n... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 84 | ||
do_obra_002_014 | caminhando, vai dizendo:
- O senhor talvez não me conheça. Porém e u, meu caro senhor, o conheço muito bem. Nos
subúrbios, todos conhecem as suas habilidades, Senhor Cassi Jones; e, embora esteja lá morando há
pouco, já tive notícias do seu valimento.
Cassi assustava-se com a calma do rapaz e pôs -se a medir-lhe ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 86 | ||
do_obra_002_015 | disposto. Chegaram à confeitaria e sentaram-se. O caixeiro serviu vermouth; e, quando iam em
meio, o outro disse ex-abrupto para Cassi:
- O senhor sabe quem é aquela moça que vinha a meu lado?
Colhido de surpresa, não pôde tergiversar e disse prontamente:
- Não sei absolutamente.
- É minha irmã - afirmou o des... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 122 | ||
do_obra_002_016 | muito reluzente e com um luxuoso cabo de madrepérola.
Cassi redobrou o esforço pa ra não denunciar o susto e, simulando calma, disse:
- Mas, meu caro senhor, creio que nunca falte i com o respeito devido à senhora sua irmã.
- É verdade; mas é preciso deixar de pers egui-la - confirmou o outro e logo acrescentou, | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_017 | como que dando por acabada a entrevista:
- Quer tomar alguma coisa mais?
- Não; muito obrigado.
Despediram-se, sem se aperta rem as mãos; e Cassi foi para a sua roda de Ataliba do Timbó,
Zezé Mateus, Franco Sousa e Arnaldo.
Um deles perguntou-lhe:
- O que queria aquele sujeito contigo?
- Nada. É meu vizinh... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 97 | ||
do_obra_002_018 | ficar com a mulher, embora, resignadamente, ela sofresse toda a espécie de privações, no horrível
subúrbio de Dona Clara, enquanto ele andava sempre muito suburbanamente elegante e tivesse
vários uniformes de football.
Tirava proventos do jogo de dados ou cam pista, e também do football, em que era | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 75 | ||
do_obra_002_019 | grupo de Cassi. Intitulava-se advogado e vivia de embrulhar os crédulos clientes que lhe caíam nas
mãos. Todos sabiam que ele não tratava de coisa alguma, pois não podia absolutamente tratar, já
por não saber coisa alguma das tricas forenses, já por não ser, de verdade, advogado. Assim
mesmo, sempre apareciam ingênu... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 121 | ||
do_obra_002_020 | um homem que prestou muitos serviços ao país.
Sempre lembrado dos seus duros começos em que ela muito o ajudara e o animara, Manuel
tinha, pela mulher, uma grande e sincera afeição, evitando o quanto possível contrariá-la, e, por
isso, não teimou dessa feita. Meses depois, porém, logo que chegou em casa, a mulher e... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 82 | ||
do_obra_002_021 | as suas rumorosas fazendas de café, que a escravaria negra povoava e penava sob os açoites e no
suplício do tronco.
O armazém em que Marramaque era empregado havia de tudo: ferragens, roupas feitas, isto
é, camisas, calças, ceroulas grosseiras, para trabalhadores; armas, louças, etc., etc. Comprava | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 75 | ||
do_obra_002_022 | tropeiros e viajantes em preparativos de partida, tal fato causou pasmo a “Seu“ Mendonça:
- Ainda lês, menino! E não te lembras que, daqui a pouco, deves estar de pé, filho de Deus!
- Esperava o senhor.
- E mais esta! Então tu pensas que eu me smo não sabia despir-me e meter-me à cama? Que
lês?
- Primaveras,... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 107 | ||
do_obra_002_023 | Marramaque:
- Tu gostas de versos, rapaz?
Hesitou em responder, ma s Mendonça fez rispidamente:
- Dize lá, rapaz; porque ni sto não vai crime algum. Está a ver-se, rapaz! Dize!
- Gosto, sim senhor - fez o caixeiro timidamente.
- Pois deves ir para o Ri o - acudiu Mendonça com pressa - estudar e... quem sabe l... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 124 | ||
do_obra_002_024 | caixeirozinho. Falou ao patrão, e ele foi se empregar numa papelaria-livraria, na Rua da Quitanda.
Freqüentada por poetas e literatos que ensaiavam os primeiros passos, nos últimos quinze anos do
Império, com eles se relacionou e sempre era escolhido para secretário, gerente, tesoureiro, de suas
efêmeras publicações... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 121 | ||
do_obra_002_025 | publicou. Que lindeza! Aquilo era um poeta que não forçava, nem tinha compasso e régua. Ouça
só!
E, com uma voz difícil, devido à semiparalis ia da parte esquerda da boca, esbugalhando os
olhos, devido ao esforço para pronunciar bem as palavras, recitava:
Prostrado nesta enxerga, sinto a vida
Ir, pouco e pouc... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 230 | ||
do_obra_002_026 | domingos, procuravam visitar os arrabaldes pitorescos e voltavam à noite. Tomavam comida fora e
só tinham uma rapariguita preta, de uns dezesseis anos, para os serviços leves da casa. Não se sabe
como, Cassi conseguiu conhecer a gaúcha e seduzi-la. Mal o marido saía, ele se metia em casa da
moça com violão e tudo. A... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 96 | ||
do_obra_002_027 | vulgar:
- Por nada. Coisas de mulh eres, meu velho. É o meu fraco.
Pela grade do xadrez, dirigiu-se a um sold ado, a quem conhecia, e falou-lhe baixo qualquer
coisa. Em breve, foi a praça substituída por outra. Vendo isso Cassi, disse para o velho Lafões:
- Estás aqui, estás na rua. Mandei o soldado falar ao meu... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 89 | ||
do_obra_002_028 | uma moça pedia fossem tomadas.
- Vamos experimentar, meu caro Marra maque. “Ele“ sabe com quem se mete...
- Eu cá, por mim, nada tenho a dizer dele. Sempre me tratou muito bem e sou-lhe grato.
- É que você, Lafões, não lê os jornais.
- Qual jornais! Qual nada! T udo que lá vem neles é mentira.
Clara ouvia ess... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 98 | ||
do_obra_002_029 | talvez lhe fossem prejudiciais. Puxava a ambos os pais. O carteiro era pardo-claro, mas com cabelo
ruim, como se diz; a mulher, porém, apesar de mais escura, tinha o cabelo liso.
Na tez, a filha tirava ao pai; e no cabelo, à mãe.
Joaquim era alto, bem alto, acima da média, ombros quadrados e rija musculatura; a mã... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 104 | ||
do_obra_002_030 | àquele momento, com grande desgosto para as moças, o trovador Cassi não havia ainda aparecido.
Clara não ocultava o seu desa pontamento; e uma de suas colegas lhe dizia em confidência:
- Clara, toma cuidado. Este homem não presta.
A moça não respondia, encaminhava-se para a sa la de jantar, a fim de disfarçar a em... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 81 |
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