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dado por seu pai, Alexandre VI, no Vaticano, causaria tanta emoção. Se não disseram: “É César! É César!“ - codilharam: “É ele! É ele!“ Os rapazes, porém, não ficaram contentes, pr essentindo essa satisfação das damas; e, entre eles, puseram-se a contar a biografia escabrosa do modinheiro. Apresentado, por Lafões,...
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Clara dos Anjos
Afonso Henriques de Lima Barreto
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ao lado o filho. A polca era a dança preferida, e todos quase a dançavam com requebros próprios de samba. Os convidados que não dançavam se haviam espalhado por várias partes da casa. Joaquim, Lafões e Marramaque ouviam o doutor Praxedes explicar o que era um habeas corpus preventivo. - Exemplifico - dizia o doutor...
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indicador apontado para o teto. - É uma medida perfeitamente jurídica de profilática, porque... Nisto acode o “doutor“ Menese s, um velho hidrópico, com a mania de saber todas as ciências, vivendo na maior miséria, apesar de exercer clandestinamente a profissão de dentista. - Doutor Praxedes - acudia o doutor Mene...
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última hora, na esperança que a houvesse. Não lograra dinheiro para tomar um caldo. Joaquim, porém, aborrecido com a discussão, fora simplesmente até à sala de visitas convidar: - Quem quiser tomar alguma coisa, comer biscoitos, é só vir cá dentro. Não façam cerimônia. Toda a vez que o anfitrião dizia isso, Me ne...
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convite, ele respondeu cheio de uma cerimônia afetada: - Estou sem voz: esfalfei-me muito ontem, no baile do doutor Raposo e... Vendo que seu pai o havia convidado, Clara animou-se: - Por que não canta, “Seu“ Cassi? Dizem que o senhor canta tão bem... Esse - “tão bem“ - foi alongado maciamente . Cassi concertou...
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fingindo constrangimento, respondeu: - Já que a senhora manda, vou cantar. Marramaque, que tinha ouvido tudo, ficou espantado com o desembaraço da afilhada. Diabo! fez ele de si para si. O violeiro, com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e avisou: — Vou cantar uma modinha velha, mas muito...
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velho aleijado o olhava. Cassi pensou, de si para si: “Este pobre-diabo me paga.” O que espantava, na ação de Marramaque, er a a sua coragem. Ele, semi-aleijado, velho, pobre, lançava um solene desafio àquele valdevinos forte, são, habituado a rolos e rixas. Cassi não se demor ou mais por muito tempo. Pediu o chap...
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quero mais. - O que é? - É que esse Cassi ve nha mais aqui. Dona Margarida me disse que ele é, é um devasso. Você não vê como ele canta indecentemente, revirando os olhos... Não o quero mais aqui; se ele vier... - Não é preciso você se zangar, Engrácia; não go stei também dele e não porá mais os pés na
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proceder monástico em relação à Clara. Enganava-se com a eficiência dela; porque, reclusa, sem convivência, sem relações, a filha não podia adquirir uma pequena experiência da vida e notícia das abjeções de que está cheia, como também a sua pequenina alma de mulher, por demais comprimida, havia de se extravasar e...
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porta da casa de seus pais. Engrácia estava justamente arrumando a sala de visitas; recebeu-o com visível desgosto e gritou para a cozinha, onde estava Clara: - Chama teu pai, que está aí “Seu“ Cassi. A moça ia aproximar-se para falar ao m odinheiro, quando a mãe lhe disse rapidamente: - Vá chamar seu pai! Ande!...
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heroicamente numa doentia e vaidosa manifestação de personalidade: - Eu sou Leonardo Flores. O povo sabia vagamente que ele tinha celeb ridade. Chamava-o - o poeta. No começo, caçoava com ele, mas ao saber de sua reputação, deram em cercá-lo de uma piedosa curiosidade. - Um homem desses acabar assim - que castig...
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no interior da venda, pôs as mãos nas cadeiras e respirou com força. Após os cumprimentos, perguntou: - O Flores não tem aparecido? - Há muito tempo que não vem aqui - fe z o “Seu“ Nascimento do interior do balcão. - Fui à casa dele, e disse-me a mulher que havia saído... Preciso tanto dele... Ao dizer isto, ...
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artistas. - Como? - fez espantado o dentista particular. - É o que dizem. Corre aqui que o senhor está toda a noite com o mestre-violeiro Cassi e vários companheiros, num botequim do Engenho Novo. - É verdade. São todos rapazes decentes, que... - Então, o Cassi, este é de colete? - Dizem - interveio “Seu“ Na...
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modos para livrar-se das penalidades e lançar na desgraça moças e senhoras - confirmou Alípio. - Como ele consegue isso? - indagou “Seu“ Nascimento. - No começo, com a proteção do pai. Ao fim do segundo ou terceiro caso que veio a público, o pai não lhe falou mais e nunca mais se interessou pela sua liberdade. Suc...
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pretendeu fazer uma das suas, mas o tio não esteve pelos autos; despachou-o para a irmã. A muito custo, a mãe conseguiu que ficasse num porão dos fundos, que mal tem a altura dele. Nesse “socavão“ é que ele mora e come. Nunca sobe nas dependências superiores da casa, com medo do pai. Se, por acaso, este tiver notíci...
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fixa do armazém, “Seu“ Nascimento não perdia o fio da conversa, e ela continuava naturalmente. Alípio, habituado a isso, não suspende u a narração e deu a resposta pedida. - O protetor dele, agora, é um tal Capitã o Barcelos, chefe político na estação de***. Tem influência e foi por saber disso que Cassi aderiu a ...
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mulher, produzindo no meliante ferimentos graves, isto há vinte anos, ganhou lá o gosto pela política e lá aprendeu as primeiras noções dessa difícil ciência. Foi na detenção que... - Ué! - exclamou Nascimento. - Também você, Alípio... - fez duvidoso Meneses. Alípio continuou: - Lá, ele encontrou um político d...
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mas era feliz, pois, apesar de fazer muitos fiados, quase não os perdia. Era até estimado, pelo seu gênio folgazão e prestativo. O político, que tinha um chefete adversário, naquela estação, viu bem como, para desbancá-lo, podia aproveitar os serviços de Barcelos. “Você por que não se mete na política?”, disse ele...
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escolhida para depor em seu favor, caluniando as vítimas, nos seus imundos processos. - Foi ele quem levou a su rra? - indagou Nascimento. - Sim; ele, na estação de Todos os Santos, após uma perseguição ignóbil a Dona Margarida ... - Que Dona Margarida? A do 74? - falou com surpresa Nascimento. - Essa mesma. D...
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que fica sempre na primeira aventura, das preferidas por Cassi: - Mas, “Seu“ Alípio, o senhor acredita que haja gente tão malvada, como esse Cassi? - Há, e não pouca. Sei de tudo que cont ei de fonte limpa. É a pura verdade. O doutor Meneses tinha fica do aborrecido com o tom da conversa. Tinha ido à venda,
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copitos de parati; mas, quando se despediu, tomou um grande. Caminhando pôs- se a pensar: - Que devia fazer? Pegou diversas hipóteses e concluiu: - Ir até ao fim. A coisa não oferecia nenhum perigo para ele... Isso não o contentou de todo. Procurou distrair-se. A recepção que tivera Cassi, na sua segunda ...
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de Clara. Por exclusão, ele só viu duas pessoas capazes de lhe estarem atrasando seu “trabalho“, começado com tanta rapidez e sem esforço. Quem eram? Só podiam ser Dona Margarida, por causa do “negócio“ do Timbó; e o tal aleijado, que lhe lançara a indireta, em verso, de chamá-lo de burro. Se na sedução, propr ia...
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entretanto, quando no decorrer de suas conquistas, encontrava obstáculos, fosse mesmo da parte do próprio irmão da vítima em alvo, logo procurava empregar violência, para arredá-lo. É bem de ver que ele sabia com quem se metia; mas, no caso, tratando-se de um quase inválido, a força a empregar seria mínima; e, no q...
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sentia absolutamente criminoso, por ter até ali seduzido cerca de dez donzelas e muito maior número de senhoras casadas. Os suicídios, os assassínios, o povoamento de bordéis de todo o gênero, que os seus torpes atos provocaram, no seu parecer, eram acontecimentos estranhos à sua ação e se haviam de dar de qualquer ...
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a bengala ultra-aperfeiçoada e foi dizendo prazenteiramente: - Por aqui? Sente-se, or a esta! Seja bem-vindo! O rapaz sentou-se, respondendo: - Muito obrigado, meu caro “Seu“ Lafões. - Por que não aparece mais vezes, Senhor Cassi? - continuou Lafões com amizade. - Não tenho tido tempo. Nos dias da semana, são...
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dinheiro para esse santo, é dinheiro para as obras da igreja... Não posso mais! Edméia, porém, está lá no fundo do quintal. Quer tomar café, Senhor Cassi? - É incômodo... Se a sua senhora estivesse, sim; mas... - Não há incômodo algum. Edméia o aquece no espírito... Só se o Senhor Cassi não gosta
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Entrando, exclamou logo: - Oh! Estava aqui “Seu” Ca ssi. Que surpresa! Não sabia... Falou ao rapaz e este lhe disse a esmo: - Há muito que não a via. - É verdade, desde o dia de anos de Clarinha... Tem ido lá? - Não tenho podido. - Por quê? Parece que lá não gostam do senhor... Principalmente aquele “pé-pé“...
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nos duas xícaras. Vá. Saindo a menina, Cassi julgou de bom alvitre, para preencher o fim verdadeiro de sua visita, dizer: - Podem não gostar de mim. Mas a implicância é sem motivo. Nunca... - Ora, Senhor Cassi, o senhor vai dar ouvido a crianças. Elas não sabem o que dizem. - Agora, meu caro “Seu” Lafões, eu...
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Marramaque, velho, doente, não sabe disfarçar o seu mau juízo pelos que apreciam o violão e o tocam, cantando modinhas. - Mas... o “Seu“ Joaquim? - É que eles são compadres e amigos , meu caro Senhor Cassi. Está explicado. Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo. Falaram sobre as festas próximas
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galanteios e as cartas, ele tinha o final como certo; se não, ele não perdia tempo, abandonava os esforços preliminares e esperava que outra mais suasória aparecesse. No caso de Clara, ele não estava dispos to a acreditar que se houvesse dado a primeira hipótese, porquanto lhe davam certeza disso o embevecimento co...
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esse preço, depois que a “coisa“ estivesse acabada... Veio tomar café no “socavão“, onde a velha Romualda lhe trazia todas as manhãs. Era velha, e a sua velhice a defendia perfeitamente contra qualquer assalto de Cassi. Perguntou-lhe este: - Meu tio ainda está aí? - Quem é seu tio, nhonhô? - Aquele moço que es...
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ponto ajustado. Cassi explicou-lhe então que de via ir, naquela tarde, à venda do Nascimento, cuja rua e cujo número lhe deu. Chegando lá, simularia ter ido procurar por “Seu“ Meneses, que ele conhecia. - Se ele não estiver? - indagou Arnaldo. - Você diz que fica à espera e ouve o que se c onversa lá. Nela, deve...
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o doutor Meneses? Todos, porém, responderam: não. Arnaldo ia dizer obriga do, para retirar-se, quando Mr. Persons perguntou-lhe: - Sinhôr, vem cá! Arnaldo fez-se jovial. - Oh! “Seu“ mister como vai? - Não diga “Seu“ mister, é “error”. Bem... Onde está mia capa? - Trago por esses dias, tenho me esquecido. ...
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ser do bando do tal Cassi, para não prestar. Marramaque acudiu: - Eu ainda não conhecia este. Vou indicá-l o ao compadre. O tal Trembó ou Tipó, como é? - Timbó, fez Alípio. - O tal de Timbó já conheço e já o apontei ao compadre. Por falar nisto, o senhor sabe, “Seu“ Nascimento e meus senhores, o que recebi, há...
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do tempo, indicação das datas dos processos e dos juízes e delegados - tudo! - Quem lhe mandou? - perguntou Alípio. - Não sei. Recebi a coisa na secretaria, lá a li e dei-a ao compadre, para se prevenir. - Com uma boa garrucha - observou Nascimento. - Ou revólver - obtemperou Marramaque. Ouvindo tudo isto e p...
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de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que chama- mos “avenida“. As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de capim, que são aproveitados pelas famílias para coradouro. De manhã até à noite, ficam povoadas de toda a espécie de pequenos animais domésticos: ...
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os que vêm do limite do Distrito com o Estado do Rio. Esses são os expressos. Há gente por toda a parte. O interior dos carros está apinhado e os vãos entre eles como que trazem quase a metade da lotação de um deles. Muitos viajam com um pé num carro e o outro no imediato, agarrando-se com as mãos às grades das plat...
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confiança. Fosse coisa pequena em que nada se gastasse, o capitão mover-se-ia; no caso contrário, porém, fugiria com o corpo. Era preciso cautela, senão... Cassi continuou a pesar os meios que podia encontrar para entender-se com Clara. Com Lafões, ele já não contava. Vira, na última visita que lhe fizera, que o ve...
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embaixo... Às vezes, dá-se uma penada e lá vêm vinte, trinta e mesmo cinqüenta... Vendo que a conversa não interessava Cassi, mudou-a de sentido e perguntou: - Tem ido à casa do carteir o, lá na Rua Teresina? - Há muito tempo que não; e você? - Eu só fui lá a convite de um dos músico s. Não tenho relações parti...
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Demais, também receitava. Fazia alguma coisa: a questão era economizar. Assim fez e, durante um ano, poupou o dinheiro necessário para ir estabelecer-se no Rio e esperar uma colocação qualquer. O seu amigo farmacêutico não o quis dissuadir, mas disse-lhe: - Se você fosse mais moço, aconselharia até, porque se proj...
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encontrado; mas, desde que vira aquelas máquinas e maquinismos, sentira outra coisa dentro de si. Não deixou, entretanto, de levar a mala dos ferros de dentista e a carta de recomendação. No dia seguinte, depois de uma noite insípi da no hotel, foi, indagando daqui, informando-se dali, até à Capitania do Porto. P...
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encontro, perguntando: - Você não me conhece mais? - Não, senhor. - Sou o seu irmão Juca. Abraçaram-se muito, e o irmão Leopoldo foi di zer ao porteiro quem era e o que havia. - Há trinta anos! - exclamou o porteiro. - Você devia ser muito criança - hein, Leopoldo? O marinheiro respondeu: - Devia ter cinc...
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participou o sobrinho de seis anos, sempre de nariz sujo e vestes rotas, arredio e agarrado às saias da mãe, mas sem querer tornar a bênção ao tio. A irmã logo convidou o irmão mais velho a ficar com eles. Havia um barracão no quintal, que, bem reparado, podia servir para Leopoldo, e o quarto deste ficaria para o J...
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dizendo: - Se eu tenho que gast ar em outra parte... Logo foi interrompido por todos: - Oh! Não, não, Juca! - Não é esse motivo! - fez o cunhado. - Não seja essa a dúvida, mano Juca. Meneses ficou muito agradecido e acrescentou: - Mesmo porque quero que um de vocês consiga meios e modos de falar ao doutor...
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estava triste a um canto, lendo um jornal, com um cálice vazio ao lado. O homem das modinhas chegou-se e, se m dizer palavra, foi-se abancando: - Boa-noite, doutor! - Boa-noite, “Seu“ Cassi - fez Me neses, erguendo a cabeça do periódico. - Que há de novo, por aí? Trabalha-se muito? - Alguma coisa. Agora, as c...
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arranjar esses sapatos de duraque que uso, por não poder usar outros, suo sangue e faço das tripas coração... - Paciência, doutor. Tome algu ma coisa - fez Cassi amável. Meneses aceitou e disse amargamente: - Estou com setenta anos e não sei o que fiz na vida. Cassi regozijava-se, intima mente pensando: o home...
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pouca coisa, mas, talvez, daí... - Aceito tudo... - Outra coisa, doutor Meneses. - Que há? - O senhor se dá muito co m o Leonardo Flores, o poeta? - Muito. Por quê? - É que eu queria uns versos... Meneses não escondeu o espant o, que Cassi percebeu, e, sem dissimular, procurou explicar-
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arranja? Olhe, doutor, não é para afrontar; tem aqui dez mil-réis para as primeiras despesas. Cinco são para o senhor e cinco para ele. - Não é preciso - disse Mene ses, já um tanto convertido. A sua miséria lhe falava. Não havia quebra de honestidade, tanto mais que não se tratava de injúrias e insultos a ningué...
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feita de metades de duas outras, e dormiu serenamente. Logo pela manhã, no dia seguinte , a irmã despertou-o assustada: - Juca! Juca! - Que é mulher? Não se pode dormir mais nesta casa... Depois, mudando de tom: - Que há, Etelvina? - Precisamos de açúcar, café, e já devemos ao padeiro seiscentos réis. - V...
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consciência. Encontrou um grupo de rapazes da estrada de ferro, que eram sempre generosos com ele. Estavam ruidosos e contentes. Meneses sentou-se na roda, mas não houve meio de despregar a língua. - Que é isto, Meneses? Bebe! - fez um. Ele bebia, mas o espinho não saía. Conve rsava afinal um pouco. Num dado mome...
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vendo que era demais na conversa com a sua tristeza e o seu arrependimento reprimido, despediu- se. Um lhe perguntou: - Vais para casa? Tens dinheiro? Ele respondeu: - Vou já para casa; mas dinheiro não tenho. Os rapazes fizeram-lhe um rateio, que perfez dois mil-réis; e, quando saía, um outro,
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garrafa de “cachaça“ para o nosso querido Meneses espantar as suas mágoas. Quando Meneses apareceu em casa, a irmã foi-lhe logo dizendo: - Juca, foi bom você aparecer. Estou sem dinhe iro para carvão, farinha e querosene. O que você deu não chegou... Fui comprar carne-seca - lá se foi todo o dinheiro. O velho Me...
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sensacionais, falou com voz cava e solene: - Tu, Meneses! És tu, Pítias da minha alma! Notícias há muitos sóis que não hei recebido de ti. Entra neste solar amigo e repousa a fadiga da jornada naquela credência de Córdova que o Abd- El-Málek, caído do Atlas, me mandou de Marrocos e foi do último rei de Granada, Bo...
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avoengas de Mangaratiba. Tomaram o “licor de boa amizade“; e, após, o poeta, falando em tom natural, perguntou ao amigo: - Como vais, Meneses? - Assim; e tu? - Às vezes, bem; às vezes, mal - conforme a lua. Já tomaste café? Embora dissesse que sim, Flores teimou em servir-lhe outra xícara, que foi buscar à
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estou falando... Calou-se um pouco e ambos sorveram o café a grandes goles, mastigando grandes pedaços de pão com manteiga. Flores cessou de mastigar e perguntou: - Por que tu me perguntaste se eu ainda fazia versos? Ingenuamente, Me neses respondeu: - Tinha encomenda deles a fazer-te. - O quê? - fez indigna...
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deixando a xícara sobre a mesa. - Pois tu não sabes quem sou eu, quem é Leonardo Flores? Pois tu não sabes que a poesia para mim é a minha dor e é a minha alegria, é a minha própria vida? Pois tu não sabes que tenho sofrido tudo, dores, humilhações, vexames, para atingir o meu ideal? Pois tu não sabes que abandonei ...
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porque ela representava, não só a minha Redenção, mas toda a dos meus irmãos, na mesma dor. Louco?! Haverá cabeça cujo maquinismo impunemente possa resistir a tão inesperados embates, a tão fortes conflitos, a colisões com o meio tão bruscas e imprevistas? Haverá? Flores havia falado até agora de pé, no meio da sal...
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censurava e, ao mesmo tempo, se apiedava pela incompreensão que não podia existir num velho amigo, tal como Meneses, pela verdadeira natureza e poder do seu estro e pelo seu ardor artístico. Leonardo, com menos paixão e entusiasmo, continuou: - Sim, meu velho Meneses, fu i poeta, só poeta! Por isso, nada tenho e n...
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do que a sua inércia natural, nunca punha em prática uma medida eficaz que traduzisse amparo e direção de mãe na conduta da filha. Pensava, mas não chegava ao ato. O dia inteiro, quase, passava m as duas mulheres metidas cada uma consigo mesma. A mãe lavava a roupa no tanque , ao lado da casa; e a filha se encarre...
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Nascimento. - Não acredito que “ele“ venha, nem também que o outro se repimpe no Catete. - Seria bom para o se nhor... - dizia Nascimento. - O quê? Nem o conheço... Qual! Na da tenho com um nem com outro... - Mas é seu patrício... - Como o senhor é, como o outro é também. Somos todos brasileiros... Eu, “Seu“
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Nascimento, só cuido da mulher e da filha e, um pouco, da música. - Por falar em música: que tal aquele Cassi? - Quer que lhe diga uma coisa? Como músico, não vale nada. Dá cada cincada... - Mas tem fama... - A fama dele vem do dengos o, do meloso que ele põe no cantar, chegando a ser até uma indecência. Ele...
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Clara dos Anjos
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do nosso meio, que não tem instrução nem preparo. - “Seu“ Joaquim, o senhor já viu o caderno que mandaram a seu compadre sobre o tal Cassi? - Já. - Que pensa daquilo tudo? - Se é verdade, ele merece a forca. - Pois dizem que é. O senhor não sabe quem é a tia Vicência, que mora por aqui, na Rua da Redenção? ...
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que se meter, toma a peito a causa da vítima, seja quem for. Joaquim dos Anjos ouviu isso, calou-se um pouco e, sem nada responder, recomendou: - Não se esqueça de mandar, principalmente a lenha, que é precisa para o almoço. Estou na hora... Até logo! Saiu, pensando nesse tal Ca ssi, que, por mais que quisesse e...
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corretamente. Gostava de lidar com aqueles homens louros, rubicundos, robustos, de olhos cor do mar, entre os quais ele não distinguia os chefes e os subalternos. Quando havia brasileiros, no meio deles, logo adivinhava que não eram chefes. Almoçava frugalmente e até às cinco executava o serviço, isto é, as várias...
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Felizmente, gritei por Dona Margarida, que acudiu. - Que é que ela teve, mulher? - Dentes, Quincas; mas uma dor muito forte. - Ora, você mesmo! Você é uma pamonha. Entã o dor de dentes é moléstia que assuste ninguém? - É que você não viu. - Vamos ver o que há? Dirigiu-se para o quarto da filha, que tinha o...
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passar a dor, mas tenho o queixo inchado... - Não é nada? - Penso que sim - disse Clara, e acrescent ou: - olhe, papai, não pude passar a limpo a música. - Não faz mal, eu mesmo passo. Depois ajuntou, voltando- se para a mulher: - É preciso levar essa menina ao den tista, Engrácia, enquanto está no começo. ...
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se trata. Que acha, Engrácia? - Acho bom, se ele vier em casa. - Ele virá, pela manhã. Almoçará co m vocês e dar-lhe-ei alguma coisa. - Você quer, Clara? - perguntou o pai. - Aceito e acho bom. Não é preciso sair e mamãe não se incomoda. Foi assim que Meneses entrou a tratar dos dentes de Clara, fato de que t...
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este tomado um ar grotesco de entendido e olhava vago, simulando que ajustava pensamentos. Após ter Meneses perguntado o que achava dos versos, o manhoso violeiro disse: - Não era bem isto que eu queria. Os vers os, porém, não estão maus, antes são bons. Serve até para modinha... O doutor não sabe quem faça música ...
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esgravatar as algibeiras. Encontrou um níquel de cruzado e pensou: “Bem! Para o café e o açúcar, já temos.” Continuou a procurar, achou, dobradinha, no fundo de um bolso, uma nota de cinco mil- réis. Espantou-se. Quem lha teria dado? Cogitou, forçou a memória, enquanto a irmã resmungava: - Juca, você não ouviu o que...
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desabridamente. Relaxava o serviço ou não o fazia. Quase sempre, esquecia-se disso ou daquilo. Engrácia comunicou isto tudo ao marido. Joaquim disse então: - É verdade, Engrácia. Essa menina tem algu ma coisa... Antigamente, as suas cópias de música eram limpas e certas; agora, não. Vêm cheias de raspagens, erradas...
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amaldiçoado por todos, até pelo próprio pai. Serenou e tomou a resolução de contar o fato, por sua vez, a Joaquim, antes que aquele perverso de modinheiro não lhes pespegasse alguma das dele. Joaquim recebeu a notícia sem demonstrar espa nto. Não gostava também de Cassi. Era, para ele, homem morigerado e trabalhado...
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feroz e grosseira se revelava, num ríctus horrível. Pagou alguma coisa que beber a Menese s e despediu-se, sem dizer mais nada. Meneses continuou a sorver os seus consoladores “calistos“ e a perguntar de si para si: - Que há? Que haverá? Que haveria? O que havia, era simples: Cassi premedita va simplesmente, fr...
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tem a nossa vida, mais este do assassínio por divertimento, por passatempo, por esporte. Um ou muitos, seja em que número forem, é sempre uma ameaça que paira sobre cada um de nós, zombando da mais ostensiva pobreza e não tendo em consideração a pacatez mais pusilânime. Marramaque não era rico nem andava com jóia...
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ovo em pé. - Eles puseram? - perguntou Alípio. Meneses apressou-se: - Não puseram; mas Colombo pôs. - Como? - indagou Alípio. Meneses explicou, tomando a pa lavra de Mindela, com todo o seu açodamento de sábio: - Colombo, dando um movimento de rotação conveniente e um de translação adequado,
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sempre sobre as patas, atirado que seja, do alto para baixo, em qualquer posição. Marramaque foi-lhe ao en contro, sem pestanejar: - Nós não temos nada com gato. Ovo se parece tanto com gato como um espeto. Bolas, “Seu“ Meneses! Todos os circunstantes riram-se a mais não poder; Meneses pôs-se a cofiar a longa e
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lealdade que devem sempre existir nas amizades perfeitas. Adeus!“ Quem seria? Os policiais indagaram; mas D ona Helena não lhes pôde explicar. Naquela data, ela nem casada era ainda; seu sobrinho já tinha vindo para o Rio. Quem seria? Enfim, nada encontraram, e o crime foi sendo esquecido. Só duas pessoas podiam p...
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cautelosamente, com o rabo dos olhos. Às vezes, não se continha e apontava: - Cassi, aquele é ag ente do décimo oitavo... O modinheiro, em voz baixa, ma s com autoridade, repreendia-o: - Estás doido! Queres nos pôr no “x”, pelo resto da vida. No começo, Cassi teve me do que a embriaguez o fizesse denunciá-los; ...
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olhos divergentes e vidrados, babando-se todo e gaguejando, retrucava: “Meu querido Arn... ar... ar... Arnaldo, você é uma... pomba sem... sem fel.” Em seguida, depois de limpar a baba com o lenço: “Quem foi que... que disse que... você é... é mau?“ E acrescentava: “Traga... Traga este su... su... sujeito aqui que.....
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cadeira, e, com dificuldade, erguia os braços, a fim de cingir o camarada. Repetiam daí a pouco a cena, co m pequenas variantes, debaixo dos motejos forçados de Cassi, a quem tais espetáculos não deixavam de fazer mal. Os outros companheiros riam-se a bom rir, sem nada suspeitar. Entretanto, o violeiro não se fia...
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transportes, foi indagar-lhe o que havia: - Nada, mamãe. Vou pa ra fora, trabalhar... - Para onde, Cassi? - Vou para Mato Grosso, empregar-me na construção de uma estrada de ferro. - Como trabalhador de picareta, meu filho? - Não, mamãe, vou ser chefe de turma e pra ticar nos instrumentos, até conseguir ser
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simples trabalhador braçal, pegar na foice e roçar, no machado e derrubar, na picareta e cavar, mais nada! Voltou chorando para onde estavam as filhas: - Você não sabe, Catarina? Você não sabe , Irene, de uma coisa? Ai! Meu Deus! - Que é, mamãe? - perguntou Catarina. - Que há, mamãe? - indagou Irene. - Minhas ...
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envergonhar por toda a parte, é melhor que ele trabalhe para ver se toma caminho. Dona Salustiana olhou espantada para a filha e disse cheia de mágoa: - É que você não é mãe; mas, em breve, você será, então... Catarina obtemperou: - Mamãe, eu não acho motivo pa ra lástima. O que é de todo reprovável, é que ele ...
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vida a que está levando... O melhor é aventurar... O pai veio a saber da resolução do filho, sobre quem não punha os olhos, havia dois anos. Não conteve a sua alegria e exclamou: - Que se vá! Que vá para o diabo! Já é tempo! Depois acrescentou: - Vocês vão ver que ele fez uma das suas ; vai fugir e deixar-nos ...
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daria a tal ridículo... Essa sua filosofia sobre a elegância, de elegante suburbano, ele aplicava às moças. Quanto dengue! Para que aqueles passos estudados? Aqueles modos de dizer adeus? Achava tudo ridículo, exagerado, copiado, ma s não sabia bem de que modelo. O que, de fato, sentia não era isso que expunha aos ...
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porquanto não lhe brotava no coração nenhuma necessidade de dar presentes às amadas. Tão caros, não valia a pena!... Uma bengala de junco, esquinada, com castão de ouro, tentou-o. Os quinhentos mil-réis que tinha na algibeira murmuraram-lhe alguma coisa ao ouvido. Prontamente repudia a tentação; precisava estar segu...
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assassinatos. Quis falar: - Eu não conheço essa mulher. Juro... - “Muié“, não! - fez a tal Inês, gingando. - Qu ando você “mi“ fazia “festa“, “mi“ beijava e “mi“ abraçava, eu não era “muié“, era outra coisa, seu “cosa“ ruim! Um negro esguio, de olhar afoito, com um ar decidido de capoeira, interveio: - Mas, In...
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Estava arrumando a casa. Uma outra mulher, mas esta branca, com uns lindos cabelos castanhos, em que se viam lêndeas, comentou: - É sempre assim. Esses “nhonhôs gostosos“ de sgraçam a gente, deixam a gente com o filho e vão-se. A mulher que se fomente... Malvados! Cassi ouvia tudo isso sem saber que alvitre tor...
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do que você só aquela galinha-d‘angola de “tua“ mãe, “seu“ sem-vergonha! Cassi fez um movimento de repul sa e que a rapariga não perdeu. - “Oie“ - disse ela, para os circunstantes -; ele diz que não é o tal. Agora “memo se acusou- se“, quando chamei a ratazana da mãe dele de galinha-d‘angola... É uma “marvada“, ess...
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Perguntou de si para si: - Então, no céu, também se encontram manchas? Essa descoberta, ela a combinou com o tran se por que passara. Não lhe tardaram a vir lágrimas; e, suspirando, pensou de si para si: - Que será de mim, meu Deus? Se “ele“ a abandonasse, ela estava comple tamente desmoralizada, sem esperança...
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vistosos, com mulher mais bem-educada do que ele, mais instruída... O seu ideal era Clara, pobre, meiga, simp les, modesta, boa dona-de-casa, econômica que seria, para o pouco que ele poderia vir a ganhar... De dia para dia, ele ganhava mais fortemente a confiança da rapariga. Ela se convencia e
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daquela voz. Era mesmo um bom, um sincero, um namorado, mais que isto, um noivo - esse Cassi. - Por que você não me “pede” a papai? - perguntou-lhe um dia. Cassi, sem hesitação, com o mais c onvincente tom de franqueza, respondeu: - Não posso ainda, meu bem. Seus pais... É verdade que seu padrinho não existe mais...
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desarmava todos; e - fique você certa - logo que me empregue, peço-te em casamento. Recordando-se disso, Clara, mais uma vez, c ontemplou o céu profusamente estrelado; mas, logo, deu com a mancha de alcatrão e ficou triste. Rememorando conversas e fatos, ela punha t odo o esforço em analisar o sentimento, sem
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montanhas tinham aspectos sinistros, de gigantes negros que montavam sentinela; tudo era silêncio, e, em vão, ela apurava o ouvido e reforçava o seu poder de visão, para ver se daquele mistério todo saía qualquer resposta sobre o seu destino - ou se via o caminho para a sua salvação... Olhou ainda o céu, recamado d...
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espontâneo. Mais de uma vez, arranjara-lhe recomendações para promoções, de modo que o que era, devia de alguma sorte a Marramaque. As partidas de solo, aos domingos, não se realizavam mais. Lafões tinha sido transferido para os mananciais. O sagaz minhoto farejava que aquele negócio de Cassi desandaria em desgraç...
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locomotiva comum, produzirá o dobro do rendimento útil que esta produz. Joaquim, ouvindo tudo isto, bocejava; Mene ses, inteiramente engolfado no seu sonho mecânico, não percebia que estava enfadando o amigo. Falava, falava sobre a sua sonhada - “Andotiva“ - e bebia parati. Às vezes, jantava com o carte iro e fam...
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soltando rugidos, cofiando a barba, ainda negra, que terminava num cavaignac pontiagudo. Dona Castorina, a mulher de Flores, de ve z em vez, repreendia-o como a um filho menor: - Come com modos, Flores ! Você parece uma criança. Raramente acontecia estar presente um dos filhos. Andavam pelo football e a mãe lhes
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enterrar o queixo no peito, quando falava com solenidade. - Sei muito bem. És Leonardo Flores, meu marido - respondeu-lhe a mulher, sorrindo. - Não sou só isso. Sou mais! - insistiu Flores, carrancudo. - O que és, então? - perguntou-lhe Dona Castorina. - Sou um poeta! Dizendo isto, entrou pela sala adentro e ...
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com o rosto, alisando o cavaignac e dizendo: - Que beleza! Que beleza! Quero respirar, ch eirar, absorver todo o perfume desse divino crepúsculo... Não fora a natureza, os céus, os pássaros, as águas múrmuras, como poderíamos viver? Depois de uma pausa, acrescentou desolado: - A vida é tão banal, tão chata... N...
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Clara dos Anjos
Afonso Henriques de Lima Barreto
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velho dentista disse para o amigo: - Leonardo, estou com as pernas que não posso. Vamos descansar um pouco. - Onde? - Sentados na relva, um pouco longe da estr ada, ali, atrás daquela moita... Estou que não posso, meu caro. Os dois abandonaram o caminho público e proc uraram a tal moita. Meneses, com muita
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Leonardo, gesticulando e falando só, para a delegacia. Meneses tomou o caminho do necrotério, após fotografias e outras precauções policiais. O primeiro movimento do policia l que recebeu Leonardo, foi removê-lo incontinenti para o hospício ou lugar equivalente. Na verdade, o poeta não dizia coisa com coisa; nem me...
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