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|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
do_obra_002_031 | dado por seu pai, Alexandre VI, no Vaticano, causaria tanta emoção. Se não disseram: “É César! É
César!“ - codilharam: “É ele! É ele!“
Os rapazes, porém, não ficaram contentes, pr essentindo essa satisfação das damas; e, entre
eles, puseram-se a contar a biografia escabrosa do modinheiro.
Apresentado, por Lafões,... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 96 | ||
do_obra_002_032 | ao lado o filho. A polca era a dança preferida, e todos quase a dançavam com requebros próprios de
samba. Os convidados que não dançavam se haviam espalhado por várias partes da casa. Joaquim,
Lafões e Marramaque ouviam o doutor Praxedes explicar o que era um habeas corpus preventivo.
- Exemplifico - dizia o doutor... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 94 | ||
do_obra_002_033 | indicador apontado para o teto. - É uma medida perfeitamente jurídica de profilática, porque...
Nisto acode o “doutor“ Menese s, um velho hidrópico, com a mania de saber todas as
ciências, vivendo na maior miséria, apesar de exercer clandestinamente a profissão de dentista.
- Doutor Praxedes - acudia o doutor Mene... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 122 | ||
do_obra_002_034 | última hora, na esperança que a houvesse. Não lograra dinheiro para tomar um caldo. Joaquim,
porém, aborrecido com a discussão, fora simplesmente até à sala de visitas convidar:
- Quem quiser tomar alguma coisa, comer biscoitos, é só vir cá dentro. Não façam
cerimônia.
Toda a vez que o anfitrião dizia isso, Me ne... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 91 | ||
do_obra_002_035 | convite, ele respondeu cheio de uma cerimônia afetada:
- Estou sem voz: esfalfei-me muito ontem, no baile do doutor Raposo e...
Vendo que seu pai o havia convidado, Clara animou-se:
- Por que não canta, “Seu“ Cassi? Dizem que o senhor canta tão bem...
Esse - “tão bem“ - foi alongado maciamente . Cassi concertou... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 86 | ||
do_obra_002_036 | fingindo constrangimento, respondeu:
- Já que a senhora manda, vou cantar.
Marramaque, que tinha ouvido tudo, ficou espantado com o desembaraço da afilhada.
Diabo! fez ele de si para si.
O violeiro, com todo o dengue, agarrou o violão, fez estalar as cordas e avisou:
— Vou cantar uma modinha velha, mas muito... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 110 | ||
do_obra_002_037 | velho aleijado o olhava. Cassi pensou, de si para si: “Este pobre-diabo me paga.”
O que espantava, na ação de Marramaque, er a a sua coragem. Ele, semi-aleijado, velho,
pobre, lançava um solene desafio àquele valdevinos forte, são, habituado a rolos e rixas.
Cassi não se demor ou mais por muito tempo. Pediu o chap... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 87 | ||
do_obra_002_038 | quero mais.
- O que é?
- É que esse Cassi ve nha mais aqui. Dona Margarida me disse que ele é, é um devasso.
Você não vê como ele canta indecentemente, revirando os olhos... Não o quero mais aqui; se ele
vier...
- Não é preciso você se zangar, Engrácia; não go stei também dele e não porá mais os pés na | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 77 | ||
do_obra_002_039 | proceder monástico em relação à Clara.
Enganava-se com a eficiência dela; porque, reclusa, sem convivência, sem relações, a filha
não podia adquirir uma pequena experiência da vida e notícia das abjeções de que está cheia, como
também a sua pequenina alma de mulher, por demais comprimida, havia de se extravasar e... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 80 | ||
do_obra_002_040 | porta da casa de seus pais. Engrácia estava justamente arrumando a sala de visitas; recebeu-o com
visível desgosto e gritou para a cozinha, onde estava Clara:
- Chama teu pai, que está aí “Seu“ Cassi.
A moça ia aproximar-se para falar ao m odinheiro, quando a mãe lhe disse rapidamente:
- Vá chamar seu pai! Ande!... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 172 | ||
do_obra_002_041 | heroicamente numa doentia e vaidosa manifestação de personalidade:
- Eu sou Leonardo Flores.
O povo sabia vagamente que ele tinha celeb ridade. Chamava-o - o poeta. No começo,
caçoava com ele, mas ao saber de sua reputação, deram em cercá-lo de uma piedosa curiosidade.
- Um homem desses acabar assim - que castig... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 132 | ||
do_obra_002_042 | no interior da venda, pôs as mãos nas cadeiras e respirou com força.
Após os cumprimentos, perguntou:
- O Flores não tem aparecido?
- Há muito tempo que não vem aqui - fe z o “Seu“ Nascimento do interior do balcão.
- Fui à casa dele, e disse-me a mulher que havia saído... Preciso tanto dele...
Ao dizer isto, ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 99 | ||
do_obra_002_043 | artistas.
- Como? - fez espantado o dentista particular.
- É o que dizem. Corre aqui que o senhor está toda a noite com o mestre-violeiro Cassi e
vários companheiros, num botequim do Engenho Novo.
- É verdade. São todos rapazes decentes, que...
- Então, o Cassi, este é de colete?
- Dizem - interveio “Seu“ Na... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 168 | ||
do_obra_002_044 | modos para livrar-se das penalidades e lançar na desgraça moças e senhoras - confirmou Alípio.
- Como ele consegue isso? - indagou “Seu“ Nascimento.
- No começo, com a proteção do pai. Ao fim do segundo ou terceiro caso que veio a
público, o pai não lhe falou mais e nunca mais se interessou pela sua liberdade. Suc... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 82 | ||
do_obra_002_045 | pretendeu fazer uma das suas, mas o tio não esteve pelos autos; despachou-o para a irmã. A muito
custo, a mãe conseguiu que ficasse num porão dos fundos, que mal tem a altura dele. Nesse
“socavão“ é que ele mora e come. Nunca sobe nas dependências superiores da casa, com medo do
pai. Se, por acaso, este tiver notíci... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 176 | ||
do_obra_002_046 | fixa do armazém, “Seu“ Nascimento não perdia o fio da conversa, e ela continuava naturalmente.
Alípio, habituado a isso, não suspende u a narração e deu a resposta pedida.
- O protetor dele, agora, é um tal Capitã o Barcelos, chefe político na estação de***. Tem
influência e foi por saber disso que Cassi aderiu a ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 91 | ||
do_obra_002_047 | mulher, produzindo no meliante ferimentos graves, isto há vinte anos, ganhou lá o gosto pela
política e lá aprendeu as primeiras noções dessa difícil ciência. Foi na detenção que...
- Ué! - exclamou Nascimento.
- Também você, Alípio... - fez duvidoso Meneses.
Alípio continuou:
- Lá, ele encontrou um político d... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 93 | ||
do_obra_002_048 | mas era feliz, pois, apesar de fazer muitos fiados, quase não os perdia. Era até estimado, pelo seu
gênio folgazão e prestativo. O político, que tinha um chefete adversário, naquela estação, viu bem
como, para desbancá-lo, podia aproveitar os serviços de Barcelos. “Você por que não se mete na
política?”, disse ele... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 99 | ||
do_obra_002_049 | escolhida para depor em seu favor, caluniando as vítimas, nos seus imundos processos.
- Foi ele quem levou a su rra? - indagou Nascimento.
- Sim; ele, na estação de Todos os Santos, após uma perseguição ignóbil a Dona Margarida
...
- Que Dona Margarida? A do 74? - falou com surpresa Nascimento.
- Essa mesma. D... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 98 | ||
do_obra_002_050 | que fica sempre na primeira aventura, das preferidas por Cassi:
- Mas, “Seu“ Alípio, o senhor acredita que haja gente tão malvada, como esse Cassi?
- Há, e não pouca. Sei de tudo que cont ei de fonte limpa. É a pura verdade.
O doutor Meneses tinha fica do aborrecido com o tom da conversa. Tinha ido à venda, | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 78 | ||
do_obra_002_051 | copitos de parati; mas, quando se despediu, tomou um grande. Caminhando pôs- se a pensar:
- Que devia fazer?
Pegou diversas hipóteses e concluiu:
- Ir até ao fim.
A coisa não oferecia nenhum perigo para ele...
Isso não o contentou de todo. Procurou distrair-se.
A recepção que tivera Cassi, na sua segunda ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 91 | ||
do_obra_002_052 | de Clara. Por exclusão, ele só viu duas pessoas capazes de lhe estarem atrasando seu “trabalho“,
começado com tanta rapidez e sem esforço. Quem eram? Só podiam ser Dona Margarida, por causa
do “negócio“ do Timbó; e o tal aleijado, que lhe lançara a indireta, em verso, de chamá-lo de burro.
Se na sedução, propr ia... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 118 | ||
do_obra_002_053 | entretanto, quando no decorrer de suas conquistas, encontrava obstáculos, fosse mesmo da parte do
próprio irmão da vítima em alvo, logo procurava empregar violência, para arredá-lo.
É bem de ver que ele sabia com quem se metia; mas, no caso, tratando-se de um quase
inválido, a força a empregar seria mínima; e, no q... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 117 | ||
do_obra_002_054 | sentia absolutamente criminoso, por ter até ali seduzido cerca de dez donzelas e muito maior
número de senhoras casadas. Os suicídios, os assassínios, o povoamento de bordéis de todo o
gênero, que os seus torpes atos provocaram, no seu parecer, eram acontecimentos estranhos à sua
ação e se haviam de dar de qualquer ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 112 | ||
do_obra_002_055 | a bengala ultra-aperfeiçoada e foi dizendo prazenteiramente:
- Por aqui? Sente-se, or a esta! Seja bem-vindo!
O rapaz sentou-se, respondendo:
- Muito obrigado, meu caro “Seu“ Lafões.
- Por que não aparece mais vezes, Senhor Cassi? - continuou Lafões com amizade.
- Não tenho tido tempo. Nos dias da semana, são... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 90 | ||
do_obra_002_056 | dinheiro para esse santo, é dinheiro para as obras da igreja... Não posso mais! Edméia, porém, está
lá no fundo do quintal. Quer tomar café, Senhor Cassi?
- É incômodo... Se a sua senhora estivesse, sim; mas...
- Não há incômodo algum. Edméia o aquece no espírito... Só se o Senhor Cassi não gosta | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 75 | ||
do_obra_002_057 | Entrando, exclamou logo:
- Oh! Estava aqui “Seu” Ca ssi. Que surpresa! Não sabia...
Falou ao rapaz e este lhe disse a esmo:
- Há muito que não a via.
- É verdade, desde o dia de anos de Clarinha... Tem ido lá?
- Não tenho podido.
- Por quê? Parece que lá não gostam do senhor... Principalmente aquele “pé-pé“... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 105 | ||
do_obra_002_058 | nos duas xícaras. Vá.
Saindo a menina, Cassi julgou de bom alvitre, para preencher o fim verdadeiro de sua visita,
dizer:
- Podem não gostar de mim. Mas a implicância é sem motivo. Nunca...
- Ora, Senhor Cassi, o senhor vai dar ouvido a crianças. Elas não sabem o que dizem.
- Agora, meu caro “Seu” Lafões, eu... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 91 | ||
do_obra_002_059 | Marramaque, velho, doente, não sabe disfarçar o seu mau juízo pelos que apreciam o violão e o
tocam, cantando modinhas.
- Mas... o “Seu“ Joaquim?
- É que eles são compadres e amigos , meu caro Senhor Cassi. Está explicado.
Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo. Falaram sobre as festas próximas | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_060 | galanteios e as cartas, ele tinha o final como certo; se não, ele não perdia tempo, abandonava os
esforços preliminares e esperava que outra mais suasória aparecesse.
No caso de Clara, ele não estava dispos to a acreditar que se houvesse dado a primeira
hipótese, porquanto lhe davam certeza disso o embevecimento co... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 88 | ||
do_obra_002_061 | esse preço, depois que a “coisa“ estivesse acabada...
Veio tomar café no “socavão“, onde a velha Romualda lhe trazia todas as manhãs. Era
velha, e a sua velhice a defendia perfeitamente contra qualquer assalto de Cassi. Perguntou-lhe este:
- Meu tio ainda está aí?
- Quem é seu tio, nhonhô?
- Aquele moço que es... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 116 | ||
do_obra_002_062 | ponto ajustado.
Cassi explicou-lhe então que de via ir, naquela tarde, à venda do Nascimento, cuja rua e cujo
número lhe deu. Chegando lá, simularia ter ido procurar por “Seu“ Meneses, que ele conhecia.
- Se ele não estiver? - indagou Arnaldo.
- Você diz que fica à espera e ouve o que se c onversa lá. Nela, deve... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 86 | ||
do_obra_002_063 | o doutor Meneses?
Todos, porém, responderam: não.
Arnaldo ia dizer obriga do, para retirar-se, quando Mr. Persons perguntou-lhe:
- Sinhôr, vem cá!
Arnaldo fez-se jovial.
- Oh! “Seu“ mister como vai?
- Não diga “Seu“ mister, é “error”. Bem... Onde está mia capa?
- Trago por esses dias, tenho me esquecido. ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 148 | ||
do_obra_002_064 | ser do bando do tal Cassi, para não prestar.
Marramaque acudiu:
- Eu ainda não conhecia este. Vou indicá-l o ao compadre. O tal Trembó ou Tipó, como é?
- Timbó, fez Alípio.
- O tal de Timbó já conheço e já o apontei ao compadre. Por falar nisto, o senhor sabe,
“Seu“ Nascimento e meus senhores, o que recebi, há... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 136 | ||
do_obra_002_065 | do tempo, indicação das datas dos processos e dos juízes e delegados - tudo!
- Quem lhe mandou? - perguntou Alípio.
- Não sei. Recebi a coisa na secretaria, lá a li e dei-a ao compadre, para se prevenir.
- Com uma boa garrucha - observou Nascimento.
- Ou revólver - obtemperou Marramaque.
Ouvindo tudo isto e p... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 96 | ||
do_obra_002_066 | de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que chama- mos “avenida“.
As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de capim, que
são aproveitados pelas famílias para coradouro. De manhã até à noite, ficam povoadas de toda a
espécie de pequenos animais domésticos: ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 94 | ||
do_obra_002_067 | os que vêm do limite do Distrito com o Estado do Rio. Esses são os expressos. Há gente por toda a
parte. O interior dos carros está apinhado e os vãos entre eles como que trazem quase a metade da
lotação de um deles. Muitos viajam com um pé num carro e o outro no imediato, agarrando-se com
as mãos às grades das plat... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 97 | ||
do_obra_002_068 | confiança. Fosse coisa pequena em que nada se gastasse, o capitão mover-se-ia; no caso contrário,
porém, fugiria com o corpo. Era preciso cautela, senão...
Cassi continuou a pesar os meios que podia encontrar para entender-se com Clara. Com
Lafões, ele já não contava. Vira, na última visita que lhe fizera, que o ve... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 86 | ||
do_obra_002_069 | embaixo... Às vezes, dá-se uma penada e lá vêm vinte, trinta e mesmo cinqüenta...
Vendo que a conversa não interessava Cassi, mudou-a de sentido e perguntou:
- Tem ido à casa do carteir o, lá na Rua Teresina?
- Há muito tempo que não; e você?
- Eu só fui lá a convite de um dos músico s. Não tenho relações parti... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 85 | ||
do_obra_002_070 | Demais, também receitava. Fazia alguma coisa: a questão era economizar. Assim fez e, durante um
ano, poupou o dinheiro necessário para ir estabelecer-se no Rio e esperar uma colocação qualquer.
O seu amigo farmacêutico não o quis dissuadir, mas disse-lhe:
- Se você fosse mais moço, aconselharia até, porque se proj... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 110 | ||
do_obra_002_071 | encontrado; mas, desde que vira aquelas máquinas e maquinismos, sentira outra coisa dentro de si.
Não deixou, entretanto, de levar a mala dos ferros de dentista e a carta de recomendação.
No dia seguinte, depois de uma noite insípi da no hotel, foi, indagando daqui, informando-se
dali, até à Capitania do Porto.
P... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 124 | ||
do_obra_002_072 | encontro, perguntando:
- Você não me conhece mais?
- Não, senhor.
- Sou o seu irmão Juca.
Abraçaram-se muito, e o irmão Leopoldo foi di zer ao porteiro quem era e o que havia.
- Há trinta anos! - exclamou o porteiro. - Você devia ser muito criança - hein, Leopoldo?
O marinheiro respondeu:
- Devia ter cinc... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 112 | ||
do_obra_002_073 | participou o sobrinho de seis anos, sempre de nariz sujo e vestes rotas, arredio e agarrado às saias
da mãe, mas sem querer tornar a bênção ao tio.
A irmã logo convidou o irmão mais velho a ficar com eles. Havia um barracão no quintal,
que, bem reparado, podia servir para Leopoldo, e o quarto deste ficaria para o J... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 84 | ||
do_obra_002_074 | dizendo:
- Se eu tenho que gast ar em outra parte...
Logo foi interrompido por todos:
- Oh! Não, não, Juca!
- Não é esse motivo! - fez o cunhado.
- Não seja essa a dúvida, mano Juca.
Meneses ficou muito agradecido e acrescentou:
- Mesmo porque quero que um de vocês consiga meios e modos de falar ao doutor... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 129 | ||
do_obra_002_075 | estava triste a um canto, lendo um jornal, com um cálice vazio ao lado.
O homem das modinhas chegou-se e, se m dizer palavra, foi-se abancando:
- Boa-noite, doutor!
- Boa-noite, “Seu“ Cassi - fez Me neses, erguendo a cabeça do periódico.
- Que há de novo, por aí? Trabalha-se muito?
- Alguma coisa. Agora, as c... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 93 | ||
do_obra_002_076 | arranjar esses sapatos de duraque que uso, por não poder usar outros, suo sangue e faço das tripas
coração...
- Paciência, doutor. Tome algu ma coisa - fez Cassi amável.
Meneses aceitou e disse amargamente:
- Estou com setenta anos e não sei o que fiz na vida.
Cassi regozijava-se, intima mente pensando: o home... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 111 | ||
do_obra_002_077 | pouca coisa, mas, talvez, daí...
- Aceito tudo...
- Outra coisa, doutor Meneses.
- Que há?
- O senhor se dá muito co m o Leonardo Flores, o poeta?
- Muito. Por quê?
- É que eu queria uns versos...
Meneses não escondeu o espant o, que Cassi percebeu, e, sem dissimular, procurou explicar- | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 75 | ||
do_obra_002_078 | arranja? Olhe, doutor, não é para afrontar; tem aqui dez mil-réis para as primeiras despesas. Cinco
são para o senhor e cinco para ele.
- Não é preciso - disse Mene ses, já um tanto convertido.
A sua miséria lhe falava. Não havia quebra de honestidade, tanto mais que não se tratava de
injúrias e insultos a ningué... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 102 | ||
do_obra_002_079 | feita de metades de duas outras, e dormiu serenamente.
Logo pela manhã, no dia seguinte , a irmã despertou-o assustada:
- Juca! Juca!
- Que é mulher? Não se pode dormir mais nesta casa...
Depois, mudando de tom:
- Que há, Etelvina?
- Precisamos de açúcar, café, e já devemos ao padeiro seiscentos réis.
- V... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 102 | ||
do_obra_002_080 | consciência. Encontrou um grupo de rapazes da estrada de ferro, que eram sempre generosos com
ele. Estavam ruidosos e contentes. Meneses sentou-se na roda, mas não houve meio de despregar a
língua.
- Que é isto, Meneses? Bebe! - fez um.
Ele bebia, mas o espinho não saía. Conve rsava afinal um pouco. Num dado mome... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 81 | ||
do_obra_002_081 | vendo que era demais na conversa com a sua tristeza e o seu arrependimento reprimido, despediu-
se. Um lhe perguntou:
- Vais para casa? Tens dinheiro?
Ele respondeu:
- Vou já para casa; mas dinheiro não tenho.
Os rapazes fizeram-lhe um rateio, que perfez dois mil-réis; e, quando saía, um outro, | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 75 | ||
do_obra_002_082 | garrafa de “cachaça“ para o nosso querido Meneses espantar as suas mágoas.
Quando Meneses apareceu em casa, a irmã foi-lhe logo dizendo:
- Juca, foi bom você aparecer. Estou sem dinhe iro para carvão, farinha e querosene. O que
você deu não chegou... Fui comprar carne-seca - lá se foi todo o dinheiro.
O velho Me... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 99 | ||
do_obra_002_083 | sensacionais, falou com voz cava e solene:
- Tu, Meneses! És tu, Pítias da minha alma! Notícias há muitos sóis que não hei recebido de
ti. Entra neste solar amigo e repousa a fadiga da jornada naquela credência de Córdova que o Abd-
El-Málek, caído do Atlas, me mandou de Marrocos e foi do último rei de Granada, Bo... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 82 | ||
do_obra_002_084 | avoengas de Mangaratiba.
Tomaram o “licor de boa amizade“; e, após, o poeta, falando em tom natural, perguntou ao
amigo:
- Como vais, Meneses?
- Assim; e tu?
- Às vezes, bem; às vezes, mal - conforme a lua. Já tomaste café?
Embora dissesse que sim, Flores teimou em servir-lhe outra xícara, que foi buscar à | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_085 | estou falando...
Calou-se um pouco e ambos sorveram o café a grandes goles, mastigando grandes pedaços
de pão com manteiga. Flores cessou de mastigar e perguntou:
- Por que tu me perguntaste se eu ainda fazia versos?
Ingenuamente, Me neses respondeu:
- Tinha encomenda deles a fazer-te.
- O quê? - fez indigna... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 96 | ||
do_obra_002_086 | deixando a xícara sobre a mesa. - Pois tu não sabes quem sou eu, quem é Leonardo Flores? Pois tu
não sabes que a poesia para mim é a minha dor e é a minha alegria, é a minha própria vida? Pois tu
não sabes que tenho sofrido tudo, dores, humilhações, vexames, para atingir o meu ideal? Pois tu
não sabes que abandonei ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 171 | ||
do_obra_002_087 | porque ela representava, não só a minha Redenção, mas toda a dos meus irmãos, na mesma dor.
Louco?! Haverá cabeça cujo maquinismo impunemente possa resistir a tão inesperados embates, a
tão fortes conflitos, a colisões com o meio tão bruscas e imprevistas? Haverá?
Flores havia falado até agora de pé, no meio da sal... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 90 | ||
do_obra_002_088 | censurava e, ao mesmo tempo, se apiedava pela incompreensão que não podia existir num velho
amigo, tal como Meneses, pela verdadeira natureza e poder do seu estro e pelo seu ardor artístico.
Leonardo, com menos paixão e entusiasmo, continuou:
- Sim, meu velho Meneses, fu i poeta, só poeta! Por isso, nada tenho e n... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 84 | ||
do_obra_002_089 | do que a sua inércia natural, nunca punha em prática uma medida eficaz que traduzisse amparo e
direção de mãe na conduta da filha. Pensava, mas não chegava ao ato.
O dia inteiro, quase, passava m as duas mulheres metidas cada uma consigo mesma.
A mãe lavava a roupa no tanque , ao lado da casa; e a filha se encarre... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 107 | ||
do_obra_002_090 | Nascimento.
- Não acredito que “ele“ venha, nem também que o outro se repimpe no Catete.
- Seria bom para o se nhor... - dizia Nascimento.
- O quê? Nem o conheço... Qual! Na da tenho com um nem com outro...
- Mas é seu patrício...
- Como o senhor é, como o outro é também. Somos todos brasileiros... Eu, “Seu“ | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_091 | Nascimento, só cuido da mulher e da filha e, um pouco, da música.
- Por falar em música: que tal aquele Cassi?
- Quer que lhe diga uma coisa? Como músico, não vale nada. Dá cada cincada...
- Mas tem fama...
- A fama dele vem do dengos o, do meloso que ele põe no cantar, chegando a ser até uma
indecência. Ele... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 130 | ||
do_obra_002_092 | do nosso meio, que não tem instrução nem preparo.
- “Seu“ Joaquim, o senhor já viu o caderno que mandaram a seu compadre sobre o tal Cassi?
- Já.
- Que pensa daquilo tudo?
- Se é verdade, ele merece a forca.
- Pois dizem que é. O senhor não sabe quem é a tia Vicência, que mora por aqui, na Rua da
Redenção?
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do_obra_002_093 | que se meter, toma a peito a causa da vítima, seja quem for.
Joaquim dos Anjos ouviu isso, calou-se um pouco e, sem nada responder, recomendou:
- Não se esqueça de mandar, principalmente a lenha, que é precisa para o almoço. Estou na
hora... Até logo!
Saiu, pensando nesse tal Ca ssi, que, por mais que quisesse e... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 86 | ||
do_obra_002_094 | corretamente. Gostava de lidar com aqueles homens louros, rubicundos, robustos, de olhos cor do
mar, entre os quais ele não distinguia os chefes e os subalternos. Quando havia brasileiros, no meio
deles, logo adivinhava que não eram chefes. Almoçava frugalmente e até às cinco executava o
serviço, isto é, as várias... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 141 | ||
do_obra_002_095 | Felizmente, gritei por Dona Margarida, que acudiu.
- Que é que ela teve, mulher?
- Dentes, Quincas; mas uma dor muito forte.
- Ora, você mesmo! Você é uma pamonha. Entã o dor de dentes é moléstia que assuste
ninguém?
- É que você não viu.
- Vamos ver o que há?
Dirigiu-se para o quarto da filha, que tinha o... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 89 | ||
do_obra_002_096 | passar a dor, mas tenho o queixo inchado...
- Não é nada?
- Penso que sim - disse Clara, e acrescent ou: - olhe, papai, não pude passar a limpo a
música.
- Não faz mal, eu mesmo passo.
Depois ajuntou, voltando- se para a mulher:
- É preciso levar essa menina ao den tista, Engrácia, enquanto está no começo.
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do_obra_002_097 | se trata. Que acha, Engrácia?
- Acho bom, se ele vier em casa.
- Ele virá, pela manhã. Almoçará co m vocês e dar-lhe-ei alguma coisa.
- Você quer, Clara? - perguntou o pai.
- Aceito e acho bom. Não é preciso sair e mamãe não se incomoda.
Foi assim que Meneses entrou a tratar dos dentes de Clara, fato de que t... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 84 | ||
do_obra_002_098 | este tomado um ar grotesco de entendido e olhava vago, simulando que ajustava pensamentos.
Após ter Meneses perguntado o que achava dos versos, o manhoso violeiro disse:
- Não era bem isto que eu queria. Os vers os, porém, não estão maus, antes são bons. Serve
até para modinha... O doutor não sabe quem faça música ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 140 | ||
do_obra_002_099 | esgravatar as algibeiras. Encontrou um níquel de cruzado e pensou: “Bem! Para o café e o açúcar,
já temos.” Continuou a procurar, achou, dobradinha, no fundo de um bolso, uma nota de cinco mil-
réis. Espantou-se. Quem lha teria dado? Cogitou, forçou a memória, enquanto a irmã resmungava:
- Juca, você não ouviu o que... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 117 | ||
do_obra_002_100 | desabridamente. Relaxava o serviço ou não o fazia. Quase sempre, esquecia-se disso ou daquilo.
Engrácia comunicou isto tudo ao marido. Joaquim disse então:
- É verdade, Engrácia. Essa menina tem algu ma coisa... Antigamente, as suas cópias de
música eram limpas e certas; agora, não. Vêm cheias de raspagens, erradas... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 151 | ||
do_obra_002_101 | amaldiçoado por todos, até pelo próprio pai. Serenou e tomou a resolução de contar o fato, por sua
vez, a Joaquim, antes que aquele perverso de modinheiro não lhes pespegasse alguma das dele.
Joaquim recebeu a notícia sem demonstrar espa nto. Não gostava também de Cassi. Era, para
ele, homem morigerado e trabalhado... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 119 | ||
do_obra_002_102 | feroz e grosseira se revelava, num ríctus horrível.
Pagou alguma coisa que beber a Menese s e despediu-se, sem dizer mais nada.
Meneses continuou a sorver os seus consoladores “calistos“ e a perguntar de si para si:
- Que há? Que haverá? Que haveria?
O que havia, era simples: Cassi premedita va simplesmente, fr... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 85 | ||
do_obra_002_103 | tem a nossa vida, mais este do assassínio por divertimento, por passatempo, por esporte.
Um ou muitos, seja em que número forem, é sempre uma ameaça que paira sobre cada um
de nós, zombando da mais ostensiva pobreza e não tendo em consideração a pacatez mais
pusilânime.
Marramaque não era rico nem andava com jóia... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 90 | ||
do_obra_002_104 | ovo em pé.
- Eles puseram? - perguntou Alípio.
Meneses apressou-se:
- Não puseram; mas Colombo pôs.
- Como? - indagou Alípio.
Meneses explicou, tomando a pa lavra de Mindela, com todo o seu açodamento de sábio:
- Colombo, dando um movimento de rotação conveniente e um de translação adequado, | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 76 | ||
do_obra_002_105 | sempre sobre as patas, atirado que seja, do alto para baixo, em qualquer posição.
Marramaque foi-lhe ao en contro, sem pestanejar:
- Nós não temos nada com gato. Ovo se parece tanto com gato como um espeto. Bolas,
“Seu“ Meneses!
Todos os circunstantes riram-se a mais não poder; Meneses pôs-se a cofiar a longa e | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_106 | lealdade que devem sempre existir nas amizades perfeitas. Adeus!“
Quem seria? Os policiais indagaram; mas D ona Helena não lhes pôde explicar. Naquela
data, ela nem casada era ainda; seu sobrinho já tinha vindo para o Rio. Quem seria?
Enfim, nada encontraram, e o crime foi sendo esquecido. Só duas pessoas podiam p... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 81 | ||
do_obra_002_107 | cautelosamente, com o rabo dos olhos. Às vezes, não se continha e apontava:
- Cassi, aquele é ag ente do décimo oitavo...
O modinheiro, em voz baixa, ma s com autoridade, repreendia-o:
- Estás doido! Queres nos pôr no “x”, pelo resto da vida.
No começo, Cassi teve me do que a embriaguez o fizesse denunciá-los; ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 83 | ||
do_obra_002_108 | olhos divergentes e vidrados, babando-se todo e gaguejando, retrucava: “Meu querido Arn... ar...
ar... Arnaldo, você é uma... pomba sem... sem fel.” Em seguida, depois de limpar a baba com o
lenço: “Quem foi que... que disse que... você é... é mau?“ E acrescentava: “Traga... Traga este su...
su... sujeito aqui que..... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 108 | ||
do_obra_002_109 | cadeira, e, com dificuldade, erguia os braços, a fim de cingir o camarada.
Repetiam daí a pouco a cena, co m pequenas variantes, debaixo dos motejos forçados de
Cassi, a quem tais espetáculos não deixavam de fazer mal. Os outros companheiros riam-se a bom
rir, sem nada suspeitar.
Entretanto, o violeiro não se fia... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 91 | ||
do_obra_002_110 | transportes, foi indagar-lhe o que havia:
- Nada, mamãe. Vou pa ra fora, trabalhar...
- Para onde, Cassi?
- Vou para Mato Grosso, empregar-me na construção de uma estrada de ferro.
- Como trabalhador de picareta, meu filho?
- Não, mamãe, vou ser chefe de turma e pra ticar nos instrumentos, até conseguir ser | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_111 | simples trabalhador braçal, pegar na foice e roçar, no machado e derrubar, na picareta e cavar, mais
nada! Voltou chorando para onde estavam as filhas:
- Você não sabe, Catarina? Você não sabe , Irene, de uma coisa? Ai! Meu Deus!
- Que é, mamãe? - perguntou Catarina.
- Que há, mamãe? - indagou Irene.
- Minhas ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 127 | ||
do_obra_002_112 | envergonhar por toda a parte, é melhor que ele trabalhe para ver se toma caminho.
Dona Salustiana olhou espantada para a filha e disse cheia de mágoa:
- É que você não é mãe; mas, em breve, você será, então...
Catarina obtemperou:
- Mamãe, eu não acho motivo pa ra lástima. O que é de todo reprovável, é que ele ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 82 | ||
do_obra_002_113 | vida a que está levando... O melhor é aventurar...
O pai veio a saber da resolução do filho, sobre quem não punha os olhos, havia dois anos.
Não conteve a sua alegria e exclamou:
- Que se vá! Que vá para o diabo! Já é tempo!
Depois acrescentou:
- Vocês vão ver que ele fez uma das suas ; vai fugir e deixar-nos ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 83 | ||
do_obra_002_114 | daria a tal ridículo... Essa sua filosofia sobre a elegância, de elegante suburbano, ele aplicava às
moças. Quanto dengue! Para que aqueles passos estudados? Aqueles modos de dizer adeus?
Achava tudo ridículo, exagerado, copiado, ma s não sabia bem de que modelo. O que, de
fato, sentia não era isso que expunha aos ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 92 | ||
do_obra_002_115 | porquanto não lhe brotava no coração nenhuma necessidade de dar presentes às amadas. Tão caros,
não valia a pena!... Uma bengala de junco, esquinada, com castão de ouro, tentou-o. Os quinhentos
mil-réis que tinha na algibeira murmuraram-lhe alguma coisa ao ouvido. Prontamente repudia a
tentação; precisava estar segu... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 105 | ||
do_obra_002_116 | assassinatos. Quis falar:
- Eu não conheço essa mulher. Juro...
- “Muié“, não! - fez a tal Inês, gingando. - Qu ando você “mi“ fazia “festa“, “mi“ beijava e
“mi“ abraçava, eu não era “muié“, era outra coisa, seu “cosa“ ruim!
Um negro esguio, de olhar afoito, com um ar decidido de capoeira, interveio:
- Mas, In... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 136 | ||
do_obra_002_117 | Estava arrumando a casa.
Uma outra mulher, mas esta branca, com uns lindos cabelos castanhos, em que se viam
lêndeas, comentou:
- É sempre assim. Esses “nhonhôs gostosos“ de sgraçam a gente, deixam a gente com o filho
e vão-se. A mulher que se fomente... Malvados!
Cassi ouvia tudo isso sem saber que alvitre tor... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 115 | ||
do_obra_002_118 | do que você só aquela galinha-d‘angola de “tua“ mãe, “seu“ sem-vergonha!
Cassi fez um movimento de repul sa e que a rapariga não perdeu.
- “Oie“ - disse ela, para os circunstantes -; ele diz que não é o tal. Agora “memo se acusou-
se“, quando chamei a ratazana da mãe dele de galinha-d‘angola... É uma “marvada“, ess... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 119 | ||
do_obra_002_119 | Perguntou de si para si:
- Então, no céu, também se encontram manchas?
Essa descoberta, ela a combinou com o tran se por que passara. Não lhe tardaram a vir
lágrimas; e, suspirando, pensou de si para si:
- Que será de mim, meu Deus?
Se “ele“ a abandonasse, ela estava comple tamente desmoralizada, sem esperança... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 80 | ||
do_obra_002_120 | vistosos, com mulher mais bem-educada do que ele, mais instruída...
O seu ideal era Clara, pobre, meiga, simp les, modesta, boa dona-de-casa, econômica que
seria, para o pouco que ele poderia vir a ganhar...
De dia para dia, ele ganhava mais fortemente a confiança da rapariga. Ela se convencia e | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 75 | ||
do_obra_002_121 | daquela voz. Era mesmo um bom, um sincero, um namorado, mais que isto, um noivo - esse Cassi.
- Por que você não me “pede” a papai? - perguntou-lhe um dia.
Cassi, sem hesitação, com o mais c onvincente tom de franqueza, respondeu:
- Não posso ainda, meu bem. Seus pais... É verdade que seu padrinho não existe mais... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 101 | ||
do_obra_002_122 | desarmava todos; e - fique você certa - logo que me empregue, peço-te em casamento.
Recordando-se disso, Clara, mais uma vez, c ontemplou o céu profusamente estrelado; mas,
logo, deu com a mancha de alcatrão e ficou triste.
Rememorando conversas e fatos, ela punha t odo o esforço em analisar o sentimento, sem | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 78 | ||
do_obra_002_123 | montanhas tinham aspectos sinistros, de gigantes negros que montavam sentinela; tudo era silêncio,
e, em vão, ela apurava o ouvido e reforçava o seu poder de visão, para ver se daquele mistério todo
saía qualquer resposta sobre o seu destino - ou se via o caminho para a sua salvação...
Olhou ainda o céu, recamado d... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 93 | ||
do_obra_002_124 | espontâneo. Mais de uma vez, arranjara-lhe recomendações para promoções, de modo que o que
era, devia de alguma sorte a Marramaque. As partidas de solo, aos domingos, não se realizavam
mais. Lafões tinha sido transferido para os mananciais. O sagaz minhoto farejava que aquele
negócio de Cassi desandaria em desgraç... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 95 | ||
do_obra_002_125 | locomotiva comum, produzirá o dobro do rendimento útil que esta produz.
Joaquim, ouvindo tudo isto, bocejava; Mene ses, inteiramente engolfado no seu sonho
mecânico, não percebia que estava enfadando o amigo. Falava, falava sobre a sua sonhada -
“Andotiva“ - e bebia parati.
Às vezes, jantava com o carte iro e fam... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 92 | ||
do_obra_002_126 | soltando rugidos, cofiando a barba, ainda negra, que terminava num cavaignac pontiagudo.
Dona Castorina, a mulher de Flores, de ve z em vez, repreendia-o como a um filho menor:
- Come com modos, Flores ! Você parece uma criança.
Raramente acontecia estar presente um dos filhos. Andavam pelo football e a mãe lhes | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_127 | enterrar o queixo no peito, quando falava com solenidade.
- Sei muito bem. És Leonardo Flores, meu marido - respondeu-lhe a mulher, sorrindo.
- Não sou só isso. Sou mais! - insistiu Flores, carrancudo.
- O que és, então? - perguntou-lhe Dona Castorina.
- Sou um poeta!
Dizendo isto, entrou pela sala adentro e ... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 122 | ||
do_obra_002_128 | com o rosto, alisando o cavaignac e dizendo:
- Que beleza! Que beleza! Quero respirar, ch eirar, absorver todo o perfume desse divino
crepúsculo... Não fora a natureza, os céus, os pássaros, as águas múrmuras, como poderíamos
viver?
Depois de uma pausa, acrescentou desolado:
- A vida é tão banal, tão chata... N... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 93 | ||
do_obra_002_129 | velho dentista disse para o amigo:
- Leonardo, estou com as pernas que não posso. Vamos descansar um pouco.
- Onde?
- Sentados na relva, um pouco longe da estr ada, ali, atrás daquela moita... Estou que não
posso, meu caro.
Os dois abandonaram o caminho público e proc uraram a tal moita. Meneses, com muita | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 79 | ||
do_obra_002_130 | Leonardo, gesticulando e falando só, para a delegacia. Meneses tomou o caminho do necrotério,
após fotografias e outras precauções policiais.
O primeiro movimento do policia l que recebeu Leonardo, foi removê-lo incontinenti para o
hospício ou lugar equivalente. Na verdade, o poeta não dizia coisa com coisa; nem me... | dominio_publico | null | null | Clara dos Anjos | Afonso Henriques de Lima Barreto | 127 |
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